sábado, 1 de setembro de 2007

E a pedra rolou

Chegando à orla da floresta, Dema sentou sobre uma pedra para se recuperar da longa caminhada. Diante dele, colinas. Aqui e ali, pequenos grupos de cabanas, que se acocoravam nas encostas, como galinhas. Uma estradinha serpenteava entre bosques e campos. Dia sombrio e triste. Nuvens negras ocultavam o sol, escurecendo a tarde como se a noite estivesse prestes a cair, quando passava pouco do meio dia.

A atenção de Dema foi atraída por um homem que ia pela estrada rolando uma pedra esférica a sua frente. Empurrando com dificuldade a pedra, que devia pesar mais de uma tonelada, o homem chegou ao pé de uma colina. Ao lado da estrada, a meio caminho do alto do morro, uma menina brincava com um viralata. O homem da pedra acenou para a menina, que acenou de volta. Neste momento, um raio de sol rompeu a barreira de nuvens e caiu diretamente sobre a menina, cujos cabelos brilharam como se fossem de ouro.

O homem devia ser teimoso e muito mais forte do que parecia, pois, após um minuto de descanso, voltou à tarefa. Dema olhava curioso. Duvidava que o homem conseguisse empurrar a pedra morro acima. Mas estava enganado. O homem, fazendo um esforço sobre-humano, suando profusamente, não dava sinais de desistir. Lentamente, palmo a palmo, ia empurrando a pedra inexoravelmente colina acima. Quando estava quase lá, escorregou. A pedra hesitou por um instante, e começou a rolar morro abaixo, devagar no princípio, mas cada vez mais rápido à medida que avançava.

Dema viu, horrorizado, que a pedra rolava em direção à menina. Á porta da cabana surgiu uma mulher que, ao ver o que estava acontecendo, deu um grito e correu para a filha. Tarde demais. A pedra atingiu a garota em cheio, esmagando-a contra o pó da estrada. A mulher se abraçava ao corpinho ensangüentado, uivando de dor. O cãozinho corria em círculos em torno do cadáver, latindo histericamente. Dema levantou-se de um pulo, sem poder acreditar no que via. Era terrível demais. Sentiu que seu olhar se toldava, que ia perder os sentidos.

Quando voltou a si, o dia continuava toldado e escuro. Sentou-se na pedra, pôs a cabeça entre as mãos, e chorou. Não conseguia tirar a visão da menina esmagada da cabeça. Não queria olhar naquela direção e ver a mancha de sangue escuro empapando o chão. Mas o que teriam feito o homem e a mulher enquanto ele estava desacordado? O que? Arriscou um olhar. Seu coração quase parou com o choque: lá estava a menina brincando com o viralata como se nada houvesse acontecido. E lá vinha o homem rolando a pedra à sua frente, se aproximando do pé da colina.

Dema viu, atônito, como tudo se repetia exatamente igual à primeira vez: o aceno do velho, o raio de sol que iluminava a menina por um segundo, a pedra empurrada com dificuldade morro acima, o escorregão, a mulher à porta, o atropelamento, seu desmaio.

Quando voltou a si pela segunda vez, e a cena começou a se repetir nos menores detalhes, compreendeu que havia entrado em outra dimensão, em uma dobra do tempo ou qualquer coisa do gênero, e que talvez estivesse preso a esta visão para toda a eternidade. Seria isto o inferno?

Seja o que for, é meu destino, pensou, e eu vou cumpri-lo o melhor que puder. Se eu descobrir o sentido desta cena, entenderei o sentido da vida. Abriu bem os olhos, abriu os ouvidos, abriu a mente, como um sábio que se prepara para decifrar uma mensagem de Deus.

A cena se repetia de forma idêntica, como um filme. Mas a cada vez que se repetia, Dema notava detalhes que não havia percebido nas vezes anteriores. Algumas coisas percebia com os olhos: o bordado de flores no vestido da menina, por exemplo, ou que a mãe estava bêbada quando aparecia à porta. Outras, com os ouvidos: o velho gritava algo em uma língua desconhecida, quando acenava para a menina, e quando ela era atingida pela pedra, o ruído de ossos esmagados. Nada mudava na cena, mas alguma coisa dentro dele se transformava. Primeiro foi o choque, que foi perdendo o impacto. Só desmaiou nas cinco ou seis primeiras vezes. A partir daí, seus olhos apenas se toldavam por alguns instantes antes que a cena se repetisse. Demorou muito mais tempo para que ele aceitasse a morte brutal da menina, mas acabou aceitando que a morte é a seqüência natural da vida.

Porém o que mais o intrigava na cena inteira era aquele raio de luz, surpreendente, inesperado, que iluminava a menina por um instante. A cada vez que a cena se repetia, sua fascinação com o raio de luz aumentava, enquanto que os outros elementos do drama iam perdendo importância. Tinha a impressão de que a luz ficava mais forte a cada repetição. Até que, num certo momento, anos mais tarde, tudo o mais se apagou e só restou a luz.

Então Dema compreendeu. Levantou da pedra onde estivera sentado, caminhou até a estrada, subiu a colina até chegar à cabana, e sentou no lugar exato onde ele sabia que o raio de sol ia bater.

Depois, pôs a menina no colo e ficou esperando a pedra.

7 comentários:

Anônimo disse...

MAs uma história supreendente.
Adorei a mistura de tragédia com ficção, terminando em uma situação tranquila.
Parabéns Petia

Anônimo disse...

No lograba imaginarme el final, el cual me sorprendió mucho. Excelente trabajo del personaje infantil (la niña). Sintaxis precisa, frases cortas, directas y sin adornos. Me gustó mucho. ¿La niña es un estereotipo? Hay cierto fatalismo en la narración, cierta seguridad de que los cuadros de la vida van en secuencia. Al quebrarse la secuencia, por lo menos en matemáticas, ingresamos en las teorías cuánticas. Hay algo de estructura cuántica en esta narración. ¿Cubismo?

Anônimo disse...

"O eterno retorno do mesmo..." (Nietzsche) :) "Doido" o texto :)
Bjao
Tati

Anônimo disse...

Uma historia de outra dimensao, ha ha ha. Gostei, e bastante tragica mais interesante.

Um abracao,
Anna Paola

Anônimo disse...

O homem lembra o mito de Sísifo, aquele que é condenado a ficar levando uma imensa pedra morro acima por toda eternidade. A menina lembra Core, aquela que foi raptada por Hades, e cuja mãe Demeter ficou desesperada.
Dema, no primeiro momento parece ser o herói que vai salvar a princesa,mas para nossa surpresa há uma inversão brilhante do mito do herói ocidental para o oriental. O herói chega a iluminação, e como Buda aceita a inevitabilidade da morte.
Petia, parabéns, ao recriar o mito, você está criando o seu próprio mito.

Cecília França

Anônimo disse...

Fantastica a estoria, me prendeu do começo ao fim... toca na inevitabilidade da morte, que, nos, vivos,evitamos pensar: quem nasce, um dia vai morrer. Ha' serenidade quando aceitamos este fato.

Anônimo disse...

Não foi a inevitabilidade da morte que vislumbrei no conto mas o peso de nossas opções e o resultado delas.
O personagem principal teve diversas oportunidades de mudar a cena, inclusive o desfecho dela, entretanto, somente no final se integrou completamente a mesma e fez a opção que achou melhor e que talvez lhe devolveria a paz.
Não há nada e nem ninguém para se culpar. Assim é a vida...
Beijos,
Tamara