sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Cat Strikes Again



Fille du roi était a sa fenêtre. (bis)
Et ri et ran, ran pa ta plan,
Était a sa fenêtre.

Quando dezembro chega, na minha escola, a direção fica inventando coisas prá preencher a carga horária. Não sei como é que conseguem pensar em tanta coisa chata (deve ser um talento natural), mas a gente comparece por que não tem o que fazer, e prá ver a turma. No meu caso, por que estou sempre a perigo de ser reprovado por excesso de faltas.
Desta vez eles tinham pensado em algo grande, imensamente chato mesmo – tinham convidado o mais alto Dignitário, o Grande Líder da República, para falar aos alunos. Além da palestra no auditório maior, para toda escola, o figurão ia ter um “papo íntimo” com um grupo de alunos premiados, é óbvio, por deu comportamento exemplar. Meu instinto natural me avisava para manter distância deste pessoal, mas como nada é perfeito, uma das premiadas era Verinha, um primor de menina, com quem eu tava ficando há uma semana.
Foi assim que aconteceu. No dia do grande evento, ela pediu que eu a acompanhasse até o auditório e estávamos de mãozinhas dadas, no maior love, quando bum! um segurança imenso bloqueia a porta e o Presidente, mais a Diretora e os outros maiorais da escola, entram e se dirigem à mesa de honra que havia sido armada na frente da sala. Gelei. Isso ia dar expulsão na certa, se não me confundissem com um terrorista, ou coisa pior. Abri mão imediatamente de todas minhas idéias anarquistas e subversivas e me dei conta que, sob tortura, eu confessaria qualquer coisa.
Sem saída, encostei-me a uma parede e fiz um esforço para me tornar invisível. Funcionou até certo ponto, pois como todas alunas estavam em pé (só havia garotas), me escondiam. E foi só aí que compreendi porque tinham recebido o premio por bom comportamento: disciplina! E que disciplina! Elas funcionavam como uma máquina. Cantaram um coral em homenagem ao Homem, em várias vozes, que continha primores como “magnânimo líder e exemplo varonil”, que só podia ser produto da psique senil do professor de música. Tive vontade de vomitar; o medo me impediu. Concluíram o canto e, com uma precisão que daria inveja a um sargento dos fuzileiros navais, encostaram as carteiras formando um tabuleiro de xadrez no meio do auditório. Algumas alunas afastaram-se para os lados da sala, enquanto trinta e duas delas subiam nas carteiras e faziam uma espécie de demonstração de ginástica ritmada, uma coreografia representando um jogo de xadrez. Evidente - o Grande Líder adorava xadrez! Por fim, perfilaram-se todas para ouvir a oração do Grande Líder. Para meu alivio, não iam sentar na presença do Grande Homem!
Olhei em torno, procurando alguma maneira de fugir sem ser notado. Impossível. Todas as portas estavam trancadas e havia homens da segurança por todos os lados. Neste momento, senti que a aluna a meu lado pegava minha mão e me dava uma apertadinha tranqüilizadora. Me senti melhor. Olhei para minha salvadora com o canto do olho e quase dei um grito. Era a gata do teatro! Não ouvi uma palavra do que o Líder falou. Minha cabeça girava.
Finalmente tudo acabou e ele saiu para a sala ao lado, seguido por todos puxa-sacos. A gatinha puxou-me pela mão e foi atrás. Ninguém nos impediu. Mais incrível ainda: encontramos o Magnânimo sozinho na sala, afundado em uma poltrona imensa, enrolado num cobertor xadrez. Parecia vovô esperando pelos netinhos. Fez sinal para que chegássemos mais perto e comentou que haviam iniciado o bailado com os mesmos movimentos que ele usara para abrir certa partida, que disputara com Churchill, em Castelnuovo, na campanha da Itália. Eu estava mudo, parado no meio da sala, sem saber o que dizer, e sentindo o toque quente da gata em minha mão.
Neste momento a diretora da escola entrou acompanhada por vários professores e alguns ministros. Olhou para mim surpresa e perguntou em tom severo.
- O que está fazendo aqui, Sr. Braga? Com permissão de quem invadiu a privacidade do presidente?
Tentei balbuciar uma resposta, mas a diretora não estava a fim de papo.
- Basta, Sr. Braga. Estou cansada de suas brincadeiras. Voltaremos a falar sobre isto em uma ocasião mais propícia. Retire-se imediatamente.
Eu não queria outra coisa, e saí pela primeira porta que encontrei aberta, passei algumas salas que não conhecia e fui dar num corredor comprido, que acabava num portão de ferro, que dava para a rua. Saí numa viela estreita com arquibancadas ao lado. As arquibancadas estavam lotadas de idiotas, que torciam como se fosse dia de clássico. Esperavam a saída do presidente. Ali, o esquema de segurança era muito maior que dentro da escola. Havia policiais militares de três em três metros e cordões de isolamento mantinham a pista livre. Olhando aquela alcatéia excitada, achei que a segurança presidencial tinha toda razão de se precaver. Mas ninguém me incomodou, nem a polícia, nem a torcida. Devo ter sido confundido com um dos organizadores do evento; tinha gente da escola ali: vi que o professor de educação física conversava com um dos gorilas. Botei meu ar mais sério e adulto e avancei sem olhar pros lados. Inutilmente: para meu pasmo e vergonha, minha mãe estava sentada na primeira fileira e começou a gritar assim que me viu. A velha ás vezes me mata de vergonha. Acho que ela também pensou que seu filhinho era um dos organizadores, por que gesticulava fazendo sinal para que eu subisse no pódio e distraísse a manada enquanto o Homem não vinha. “Fale de Astrologia Lógica!” berrava ela. A cambada de débeis mentais em torno dela quase morreu de rir com essa, e pôs-se a gritar em coro: “Astrologia Lógica! Astrologia Lógica!”
Escapei dali o mais rápido que pude e só me acalmei depois de pôr umas boas quadras entre mim e aquele bando de loucos. Resolvi fazer uma volta muito, muito longa, antes de voltar para casa. Precisava por minhas idéias em ordem.

sábado, 1 de setembro de 2007

E a pedra rolou

Chegando à orla da floresta, Dema sentou sobre uma pedra para se recuperar da longa caminhada. Diante dele, colinas. Aqui e ali, pequenos grupos de cabanas, que se acocoravam nas encostas, como galinhas. Uma estradinha serpenteava entre bosques e campos. Dia sombrio e triste. Nuvens negras ocultavam o sol, escurecendo a tarde como se a noite estivesse prestes a cair, quando passava pouco do meio dia.

A atenção de Dema foi atraída por um homem que ia pela estrada rolando uma pedra esférica a sua frente. Empurrando com dificuldade a pedra, que devia pesar mais de uma tonelada, o homem chegou ao pé de uma colina. Ao lado da estrada, a meio caminho do alto do morro, uma menina brincava com um viralata. O homem da pedra acenou para a menina, que acenou de volta. Neste momento, um raio de sol rompeu a barreira de nuvens e caiu diretamente sobre a menina, cujos cabelos brilharam como se fossem de ouro.

O homem devia ser teimoso e muito mais forte do que parecia, pois, após um minuto de descanso, voltou à tarefa. Dema olhava curioso. Duvidava que o homem conseguisse empurrar a pedra morro acima. Mas estava enganado. O homem, fazendo um esforço sobre-humano, suando profusamente, não dava sinais de desistir. Lentamente, palmo a palmo, ia empurrando a pedra inexoravelmente colina acima. Quando estava quase lá, escorregou. A pedra hesitou por um instante, e começou a rolar morro abaixo, devagar no princípio, mas cada vez mais rápido à medida que avançava.

Dema viu, horrorizado, que a pedra rolava em direção à menina. Á porta da cabana surgiu uma mulher que, ao ver o que estava acontecendo, deu um grito e correu para a filha. Tarde demais. A pedra atingiu a garota em cheio, esmagando-a contra o pó da estrada. A mulher se abraçava ao corpinho ensangüentado, uivando de dor. O cãozinho corria em círculos em torno do cadáver, latindo histericamente. Dema levantou-se de um pulo, sem poder acreditar no que via. Era terrível demais. Sentiu que seu olhar se toldava, que ia perder os sentidos.

Quando voltou a si, o dia continuava toldado e escuro. Sentou-se na pedra, pôs a cabeça entre as mãos, e chorou. Não conseguia tirar a visão da menina esmagada da cabeça. Não queria olhar naquela direção e ver a mancha de sangue escuro empapando o chão. Mas o que teriam feito o homem e a mulher enquanto ele estava desacordado? O que? Arriscou um olhar. Seu coração quase parou com o choque: lá estava a menina brincando com o viralata como se nada houvesse acontecido. E lá vinha o homem rolando a pedra à sua frente, se aproximando do pé da colina.

Dema viu, atônito, como tudo se repetia exatamente igual à primeira vez: o aceno do velho, o raio de sol que iluminava a menina por um segundo, a pedra empurrada com dificuldade morro acima, o escorregão, a mulher à porta, o atropelamento, seu desmaio.

Quando voltou a si pela segunda vez, e a cena começou a se repetir nos menores detalhes, compreendeu que havia entrado em outra dimensão, em uma dobra do tempo ou qualquer coisa do gênero, e que talvez estivesse preso a esta visão para toda a eternidade. Seria isto o inferno?

Seja o que for, é meu destino, pensou, e eu vou cumpri-lo o melhor que puder. Se eu descobrir o sentido desta cena, entenderei o sentido da vida. Abriu bem os olhos, abriu os ouvidos, abriu a mente, como um sábio que se prepara para decifrar uma mensagem de Deus.

A cena se repetia de forma idêntica, como um filme. Mas a cada vez que se repetia, Dema notava detalhes que não havia percebido nas vezes anteriores. Algumas coisas percebia com os olhos: o bordado de flores no vestido da menina, por exemplo, ou que a mãe estava bêbada quando aparecia à porta. Outras, com os ouvidos: o velho gritava algo em uma língua desconhecida, quando acenava para a menina, e quando ela era atingida pela pedra, o ruído de ossos esmagados. Nada mudava na cena, mas alguma coisa dentro dele se transformava. Primeiro foi o choque, que foi perdendo o impacto. Só desmaiou nas cinco ou seis primeiras vezes. A partir daí, seus olhos apenas se toldavam por alguns instantes antes que a cena se repetisse. Demorou muito mais tempo para que ele aceitasse a morte brutal da menina, mas acabou aceitando que a morte é a seqüência natural da vida.

Porém o que mais o intrigava na cena inteira era aquele raio de luz, surpreendente, inesperado, que iluminava a menina por um instante. A cada vez que a cena se repetia, sua fascinação com o raio de luz aumentava, enquanto que os outros elementos do drama iam perdendo importância. Tinha a impressão de que a luz ficava mais forte a cada repetição. Até que, num certo momento, anos mais tarde, tudo o mais se apagou e só restou a luz.

Então Dema compreendeu. Levantou da pedra onde estivera sentado, caminhou até a estrada, subiu a colina até chegar à cabana, e sentou no lugar exato onde ele sabia que o raio de sol ia bater.

Depois, pôs a menina no colo e ficou esperando a pedra.