O sinal de Não Fume piscando bem à sua frente lembrou, por associação, as palavras severas do cardiologista: Nada de cigarros. Nada de álcool. Nada de gorduras. Pediu uma Coca Diet. O último enfarte havia sido o terceiro, e ele ainda não tinha chegado aos quarenta.
Resignado, tomou o copo plástico que a moça estendia por cima da senhora empertigada sentada na poltrona ao lado e voltou a atenção para a revista. Vôo tranqüilo, sem turbulência. Olhou o relógio: cinco e dez. Seis e meia, sete, no máximo, estariam aterrissando.
Alguns minutos mais tarde a aeromoça (que era uma gracinha) voltou, servindo aquela merda intragável que passava por almoço no avião. Que, pensando bem, não era muito pior que as porcarias que vinha comendo desde o primeiro enfarte, quando as dietas entraram em sua vida.
Ele era filho de italiano, porra, bom de cama e bom de garfo! O que ele mais amava na vida era uma boa pasta com molho à bolognesa, acompanhada de um vinho tinto bem escolhido! Ou uma costelinha de porco bem gorda, uma picanha mal passada com salada de maionese, uma feijoada... Dietas eram contra sua natureza, sua educação, seus princípios! Mas o médico não queria saber: Nada de excessos. Cuidado com o colesterol. Evite as gorduras.
Foi desviado destes pensamentos pela voz do comandante informando que estavam sobre o Paraná, altitude tal, velocidade de cruzeiro tal, e que toda a tripulação estava felicíssima por tê-lo a bordo. Que hipocrisia, pensou. Ele, de seu lado, preferia mil vezes estar longe dali, numa cantina, curtindo um filé à Chateaubriand ou degustando uma dose dupla de Johnnie Walker em boa companhia.
Mas o médico tinha razão. O último enfarte tinha sido o pior, e fora o terceiro. E ele ainda não tinha chegado aos quarenta. Precisava perder peso.
Maldita tendência a engordar! Vinha de família. Menos comida, mais exercício, tinha dito o médico. Estava certo. Passava a vida sentado. Em frente ao computador. Em frente à televisão. Dentro do carro. Em reunião.
Tem um parque a dois quarteirões de onde moro, pensou. Aliás, havia sido por isto mesmo que havia se mudado para lá. Por causa do parque. A partir da semana que vem, decidiu, ia dar uma caminhada todas as manhãs. Podia levar o cachorro. Que, por ironia, também precisava de exercício. Sua mulher ia adorar.
O comandante entrou no ar de novo para anunciar que estavam dando início às manobras para a aterrissagem. Chovia em Porto Alegre. Temperatura local, 12 graus centígrados. Ainda bem que havia trazido a gabardine e o guarda chuva.
Pensando bem, esta história de caminhada no parque não vai funcionar, concluiu. Ele se conhecia bem demais. Tinha muito sono de manhã. Nada, nem ninguém, ia conseguir fazê-lo acordar mais cedo para fazer exercício. Quem sabe uma academia?
A aeromoça passou de novo, desta vez para se certificar que todos haviam afivelado os cintos. Era uma japonesinha, uma boneca oriental.
Mas a que horas ia freqüentar uma academia? De manhã nem pensar. Ao meio dia como, se estava sempre almoçando com clientes? Depois do trabalho, as oito ou nove e meia? Sua mulher ia pedir o divórcio.
O avião tocou no solo com um baque, assustando os passageiros. Quando ficou evidente que o avião estava deslizando sobre a pista, um coro de ohs e ahs se ergueu de todos lados. Depois, foi o caos. As luzes do aeroporto e dos prédios em torno passavam a uma velocidade vertiginosa deixando rastos coloridos nas janelas molhadas. Vou morrer, pensou. Não tinha medo. Sentiu que o avião estava fazendo um cavalo de pau. Súbito, tudo parou. O único ruído era o som de sirenes ao longe, cada vez mais perto. A senhora imponente, sentada ao seu lado, caiu num choro histérico, tentando inutilmente se livrar do cinto. O resto se passou como num filme. Nada real. A tripulação surgiu trêmula da cabine, se esforçando para pôr um pouco de ordem na gritaria e no caos. A japonesinha parecia vestir uma máscara No, branca como a neve. A choradeira, a evacuação pela escada de emergência, a caminhada para sair do banhado onde o avião fora parar, a retirada com água preta e malcheirosa chegando à bunda, tudo aconteceu como se fosse com outra pessoa. Estava chocado demais para perceber quão perto da morte havia chegado.
Só saiu do choque ao chegar ao hotel, tomar um banho quente e trocar de roupa. Eu podia ter morrido, pensava obsessivamente, podia ter morrido. Teve uma hora que eu tinha certeza que todo mundo ia morrer, inclusive eu - eu, que sobrevivi a três enfartes! Eu que não bebo nem fumo, que vivo com fome para evitar o risco de enfarte! Pra que tanto sacrifício? Prá morrer numa aterrissagem besta em Porto Alegre? Eu quero ao menos estar de barriga cheia quando a morte chegar!
Desceu para o restaurante, escolheu uma mesa de canto, chamou o garçon e pediu uma garrafa de Johnnie Walker Black Label, dois maços de Marlboro e um isqueiro, o cardápio de entradas e o de vinhos.
Resignado, tomou o copo plástico que a moça estendia por cima da senhora empertigada sentada na poltrona ao lado e voltou a atenção para a revista. Vôo tranqüilo, sem turbulência. Olhou o relógio: cinco e dez. Seis e meia, sete, no máximo, estariam aterrissando.
Alguns minutos mais tarde a aeromoça (que era uma gracinha) voltou, servindo aquela merda intragável que passava por almoço no avião. Que, pensando bem, não era muito pior que as porcarias que vinha comendo desde o primeiro enfarte, quando as dietas entraram em sua vida.
Ele era filho de italiano, porra, bom de cama e bom de garfo! O que ele mais amava na vida era uma boa pasta com molho à bolognesa, acompanhada de um vinho tinto bem escolhido! Ou uma costelinha de porco bem gorda, uma picanha mal passada com salada de maionese, uma feijoada... Dietas eram contra sua natureza, sua educação, seus princípios! Mas o médico não queria saber: Nada de excessos. Cuidado com o colesterol. Evite as gorduras.
Foi desviado destes pensamentos pela voz do comandante informando que estavam sobre o Paraná, altitude tal, velocidade de cruzeiro tal, e que toda a tripulação estava felicíssima por tê-lo a bordo. Que hipocrisia, pensou. Ele, de seu lado, preferia mil vezes estar longe dali, numa cantina, curtindo um filé à Chateaubriand ou degustando uma dose dupla de Johnnie Walker em boa companhia.
Mas o médico tinha razão. O último enfarte tinha sido o pior, e fora o terceiro. E ele ainda não tinha chegado aos quarenta. Precisava perder peso.
Maldita tendência a engordar! Vinha de família. Menos comida, mais exercício, tinha dito o médico. Estava certo. Passava a vida sentado. Em frente ao computador. Em frente à televisão. Dentro do carro. Em reunião.
Tem um parque a dois quarteirões de onde moro, pensou. Aliás, havia sido por isto mesmo que havia se mudado para lá. Por causa do parque. A partir da semana que vem, decidiu, ia dar uma caminhada todas as manhãs. Podia levar o cachorro. Que, por ironia, também precisava de exercício. Sua mulher ia adorar.
O comandante entrou no ar de novo para anunciar que estavam dando início às manobras para a aterrissagem. Chovia em Porto Alegre. Temperatura local, 12 graus centígrados. Ainda bem que havia trazido a gabardine e o guarda chuva.
Pensando bem, esta história de caminhada no parque não vai funcionar, concluiu. Ele se conhecia bem demais. Tinha muito sono de manhã. Nada, nem ninguém, ia conseguir fazê-lo acordar mais cedo para fazer exercício. Quem sabe uma academia?
A aeromoça passou de novo, desta vez para se certificar que todos haviam afivelado os cintos. Era uma japonesinha, uma boneca oriental.
Mas a que horas ia freqüentar uma academia? De manhã nem pensar. Ao meio dia como, se estava sempre almoçando com clientes? Depois do trabalho, as oito ou nove e meia? Sua mulher ia pedir o divórcio.
O avião tocou no solo com um baque, assustando os passageiros. Quando ficou evidente que o avião estava deslizando sobre a pista, um coro de ohs e ahs se ergueu de todos lados. Depois, foi o caos. As luzes do aeroporto e dos prédios em torno passavam a uma velocidade vertiginosa deixando rastos coloridos nas janelas molhadas. Vou morrer, pensou. Não tinha medo. Sentiu que o avião estava fazendo um cavalo de pau. Súbito, tudo parou. O único ruído era o som de sirenes ao longe, cada vez mais perto. A senhora imponente, sentada ao seu lado, caiu num choro histérico, tentando inutilmente se livrar do cinto. O resto se passou como num filme. Nada real. A tripulação surgiu trêmula da cabine, se esforçando para pôr um pouco de ordem na gritaria e no caos. A japonesinha parecia vestir uma máscara No, branca como a neve. A choradeira, a evacuação pela escada de emergência, a caminhada para sair do banhado onde o avião fora parar, a retirada com água preta e malcheirosa chegando à bunda, tudo aconteceu como se fosse com outra pessoa. Estava chocado demais para perceber quão perto da morte havia chegado.
Só saiu do choque ao chegar ao hotel, tomar um banho quente e trocar de roupa. Eu podia ter morrido, pensava obsessivamente, podia ter morrido. Teve uma hora que eu tinha certeza que todo mundo ia morrer, inclusive eu - eu, que sobrevivi a três enfartes! Eu que não bebo nem fumo, que vivo com fome para evitar o risco de enfarte! Pra que tanto sacrifício? Prá morrer numa aterrissagem besta em Porto Alegre? Eu quero ao menos estar de barriga cheia quando a morte chegar!
Desceu para o restaurante, escolheu uma mesa de canto, chamou o garçon e pediu uma garrafa de Johnnie Walker Black Label, dois maços de Marlboro e um isqueiro, o cardápio de entradas e o de vinhos.