quarta-feira, 4 de julho de 2007

AS MONTANHAS DA LUA


-Dizem que nas Montanhas da Lua, onde nasce o Nilo, nasce também outro rio que, ao chegar ao mar, faz meia volta e retorna à nascente. Este é que seria o verdadeiro Nilo.
- Uhm, resmungou Ruth.
- É deste Nilo, o Nilo sagrado, que fala Platão, acrescentou Amália.
Lucas bocejou. Tinha custado a pegar no sono na noite anterior, excitado demais. Era a primeira vez que ia ficar um fim de semana inteiro longe dos pais. Tinha vontade de mijar, mas não tinha coragem de pedir a tio Henrique que parasse o carro. Tio Henrique, sério e inacessível, não havia aberto a boca desde que haviam saído de casa.

Henrique era o irmão mais velho da mãe de Lucas, mas Lucas achava que ele não gostava da irmã caçula. Ou talvez não gostasse do pai – diziam que tinha sido contra o casamento. O fato é que não se visitavam nunca, e tinham ficado todos surpresos quando tia Amália ligou convidando ‘o menino Lucas’ para passar um fim de semana na praia. Eles eram ricos – tinham casa na praia.

Levaram guarda-sol, cadeiras, toalhas, lanche, bronzeador, etc, etc, tanta coisa, que tiveram de fazer duas viagens para descarregar tudo. Tia Amália e tia Ruth passaram o dia deitadas lado a lado nas esteiras, se queimando ao sol, espalhando bronzeador no corpo e falando sem parar. Tio Henrique passou o dia tomando cerveja e observando os banhistas, sem dizer palavra. Lucas teve um dia maravilhoso, forrado de descobertas e emoções. Brincou no mar, escalou os rochedos, fez amigos e divertiu-se à larga. A praia era o paraíso.

Estava no chuveiro, feliz da vida, quando o telefone tocou. Do banheiro onde estava, Lucas ouvia a voz de tia Amália.
- Ele está ótimo, acabamos de chegar da praia. Estava um sol de rachar. (Lucas sabia que só podia ser sua mãe ligando para saber se estava se comportando)
- Não, não se preocupe. Ele passou protetor solar, que eu vi.
- ...
- Na idade dele? Não acredito!
- ...
- Não sei, acho que não tenho um plástico deste tamanho. Mas não se preocupe, que eu dou um jeito.

Lucas gelou. Seu humor mudou com a rapidez de que só um coração de criança é capaz. A alegria de viver, que vibrava em cada músculo e veia do corpo do menino, evaporou, substituída pela mais negra depressão. A vergonha o dominou, de mistura com indignação, raiva da mãe, revolta contra a crueldade dos adultos e a sensação de impotência. Por que sua mãe sempre tinha de fazer isto? Por que contar à tia Amália que ele mijava na cama? Era bem típico dela, humilhá-lo na frente do tio e das tias! E com que cara ele ia sair do banheiro agora? Com que cara ia passar o resto do fim de semana? Tinha vontade de sumir dali, enfiar-se num buraco e desaparecer para sempre.

Acordou assustado. Abriu os olhos, ainda tonto de sono, e viu o rosto de tia Amália muito perto do dele, sacudindo-o e chamando seu nome. Por trás dela, via a luz do quarto, acesa – ainda era noite. O que estava acontecendo?
- Fazer xixi, Lucas, fazer xixi!
A compreensão caiu como um raio em sua cabeça - tia Amália tinha vindo acordá-lo de madrugada para evitar que molhasse a cama - a cama dela. Pensou que ia morrer, sentiu que seu rosto ia ficando da cor de um tomate maduro. Tia Ruth também estava ali, para aumentar sua vergonha. Levantou-se com pressa, para acabar com aquela palhaçada, e dirigiu-se com passos indignados ao banheiro.
Mas foi só quando se viu sozinho no banheiro que a enormidade da humilhação o atingiu de cheio. Foi invadido por um ódio mortal, cego, assassino. Elas não tinham o direito de acordá-lo no meio da noite daquele jeito! Não tinham direito de espezinhar a frágil dignidade de um menino de nove anos, de submetê-lo àquela humilhação. Nem cachorro merecia aquilo! Elas iam ver! Isto não ficava assim! Sufocando de raiva e impotência, Lucas apertou os dentes para não chorar. Não ia dar a ninguém o prazer de vê-lo chorando. Enxugou as lágrimas e voltou para a cama, sem ter mijado, sem sono, desejando não ter vindo, desejando ir embora na manhã seguinte e nunca mais ver os tios de novo.
Tia Ruth entrou no quarto, apagou a luz e falou baixinho, como se estivesse dividindo um segredo:
- Não esquenta, fofo. O Ronaldinho também mijou na cama até os doze.
Apesar da profunda infelicidade que o dominava, Lucas acabou adormecendo, vencido pelo corpo jovem que exigia descanso. Mas nunca jamais perdoou à tia Amália aquela humilhação.