segunda-feira, 4 de junho de 2007
Weekend em familia
- Vamos para a Serra este fim de semana?
- Quem vai?
- Todo mundo. Mamãe, mana Ângela com o marido e o bebê, compadre Mário e família, todo mundo...
- Quantos?
- Uns nove, dez.
Era dezembro, terceiro ano na faculdade e primeiro no emprego, pouca grana. Sem contar o fora que tinha acabado de levar da Malú. Um ano foda. Precisava de um break. Ar puro. Silêncio.
A casa na Serra
Em frente à casa havia cinco ciprestes, todos musicais. Em frente à casa havia azáleas, dálias, cáctus, begônias, hortênsias, violetas úmidas e outras flores; havia um gramado que morria diante dos ciprestes. Atrás da casa, o morro se abria em vale. Em torno da casa havia silêncio, música de árvores tocadas pelo vento, interrompida de quando em vez por pássaros. Morros. Nas dobras dos morros, regatos.
A cobra
Alguém viu a cobra se mexendo sob as moitas e todos fugiram apavorados. A filha do compadre caiu na escada. A outra vomitou. Clara, que estava no jardim, acudiu correndo. Mamãe, que varria as folhas do gramado com um ancinho, parou onde estava. Ângela, que tomava um banho de imersão, nem se abalou. Mamãe deu o ancinho a compadre Mário e pediu que matasse a cobra. Não era uma cobra, era o rabo de um cachorro que dormia e sonhava debaixo da moita.
O jogo de disco
Às seis horas da tarde alguém se lembrou de jogar frisbee, mas ninguém sabia onde estava o disco. Clara correu para a casa e assomou pouco depois à porta, frisbee na mão, com um sorriso de triunfo no rosto. Inclinando o corpo com um gesto elegante, lançou o disco que, traçando uma larga elipse, foi pousar no topo de uma árvore. Paulo tentou que tentou desalojar o disco com uma vara comprida, mas não conseguiu. Desabou uma chuva torrencial. Choveu a noite toda. Na manhã seguinte, muito cedo, enquanto todos ainda dormiam, compadre Mário sacudiu a árvore e salvou o frisbee.
A chuva
No telhado, como mil espíritos ruins, a água e o vento roem as telhas. A água borbulha. Geme. Arranha. O silêncio veio de madrugada, depois os grilos, as rãs. Havia uma luazinha de vez em quando, muito fina e pontuda.
O programa
Canastra. Dominó. Xadrez. Damas. Ping-pong. Depois da chuva, pelada; caminhada na trilha, passeio a cavalo.
A segunda noite
Foi negra, funda, feita de coisas adivinhadas. Os cães corriam à minha frente e latiam, vendo inimigos que eu não via, e imaginava terríveis. Em torno da casa a árvores se acendiam em mil vagalumes, As nuvens mostravam e escondiam as estrelas. Uma noite prenhe.
Impressões
– Sobre o fim de semana? Muito bacana, passamos muito bem. Foi bom rever os pinheirais. (Ângela)
– Olha, é sempre um prazer rever as montanhas, poder sair a noite e ver estrelas. (Clara)
– Um hiato, um parêntese que surgiu entre os colchetes de nossa existência urbana. (Paulo)
– Sobre o fim de semana? Neste momento estou lendo “A Idade da Razão” de Jean Paul Sartre, um livro da Editora Abril. Queres que te dê uma opinião sobre Sartre? A filosofia ou o homem? Fiz uma pergunta, responde!
(Cala. Espera que eu fale).
- Sartre; o homem: uma pessoa comum, com idéias comuns, ligado a uma mulher comum, Simone de Beauvoir e, no entanto, que grandeza! A grandeza das coisas simples, das almas purificadas, dos sentimentos como o desabrochar de uma rosa, o amanhecer de um dia ...
(Cala. Considera com gravidade o que havia dito. Conclui)
- Nunca ninguém disse nada tão lindo sobre Sartre! Quanto à filosofia, de uma profundidade que a poucos é dado descobrir.
(Cala e se interroga)
A gente pode descobrir profundidade? (Conclui)
Pode. (Mamãe)
Ao Leitor
Ir – Verbo irregular. Pretérito Perfeito do Indicativo. Perfeitamente pretérito.
Eu fui à Serra.
Tu não foste
O compadre foi. Ela foi.
Nós fomos.
Vós não fostes.
Eles foram.
Ângela e Clara foram.
Moral: Quem foi, foi; quem não foi não foi.
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4 comentários:
Lembra meus finais de semana em família. Gostei muito da construção das imagens. =)
Beijos
Interessante, Petia, diferente. Gostei dessa maneira entrecortada de construir a narrativa, também do final...
De novo muito criativo, delicado e com concretude. Parabéns!
Quem leu, leu, quem não leu, não leu - e perdeu!
Sua narrativa nos envolve, me reconheço em diversas situações, mobiliza, parabéns
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