segunda-feira, 18 de junho de 2007

perdido na periferia


"Fille du roi était à sa fenêtre. (bis)
Et ri et ran, ran pa ta plan,
Était à sa fenêtre.”


A parada estava cheia, as usual, e o ônibus não vinha nunca. Como é que eu havia me metido nessa fria? Por ser trouxa, é claro, e por viver com a cabeça nas nuvens. Se não fosse tão idiota eu não teria topado quando minha mãe perguntou, com um sorriso irresistível, se eu não tava a fim de “aproveitar esta tarde liiinda e visitar tia Pombinha”. Normalmente eu teria recusado. Mas o trouxa aqui estava chapado e topou, e lá fomos nós, nos sacudindo num coletivo que atravessou todos os subúrbios que eu conhecia e mais alguns dos quais eu nunca tinha ouvido falar.

Reconheço que a tarde estava linda, e como eu tive a sorte incrível de pegar um lugar na janela, fui curtindo o visual - e esqueci da vida. Eu entro em alfa fácil, fácil. Felizmente a velha tava junto e não perdemos a parada, o que (confesso) é um hábito quando saio sozinho.

Tia Pombinha até que não é das piores, mas espetacular mesmo é a lazanha que ela faz. E foi a gula que acabou de me foder: “Fiquem para a janta que eu faço uma lazanha caprichada”. Resultado: lá estava eu, Ricardo Braga, 18 anos (incompletos; tá bom, tá bom, dezessete e meio!), apodrecendo numa parada no cú do mundo às onze da noite, barriga inchada de lazanha, e morrendo de sono. Tinha vontade de deitar ali mesmo, no chão.

Mas não dava. O máximo que consegui foi sentar numa pedra a alguns metros da parada, pondo uma distância crítica entre mim e o povinho. Estava fumando um e remoendo minha desgraça quando pimba! – um ônibus surgiu do nada. A multidão de retirantes que povoava o ponto se jogou contra o veículo com tal gana, que tive certeza que aquela lotação era a Última Esperança. Minha mãe já havia sido arrastada pela massa humana e gesticulava para mim de dentro do monstro. Parecia filme de guerra, A Evacuação de Stalingrado, ou algo no gênero. Voltei correndo para o ponto. Tarde demais. A porta fechou-se e o motorista arrancou com violência, certo de que, se acelerasse o suficiente, conseguiria derrubar os mais teimosos, que se agarravam desesperadamente à qualquer saliência na pele do monstro. Fiquei pregado ao chão, imaginando quantos dias teria de ficar nesta parada esperando a morte por inanição, quando me dei conta do pior: a velha ficara com todo dinheiro.

A parada ficava à beira de uma estradinha de merda – o pouco que ainda restava de asfalto estava se esfarelando, e havia mais buracos na pista do que espaço entre eles. O mato ao lado da estrada crescia com uma pujança digna da selva amazônica. Em frente à parada, a luzinha amarela de um poste solitário formava um círculo no chão. O resto era a noite. Eu não tinha escolha – tinha de voltar à casa da Tia Pombinha.

E era aí que a coisa ficava preta. Quem disse que eu sabia? Já confessei que sou meio avoado. E eu ia prestar atenção quando estava com minha mãe? Lembrei que tínhamos vindo da esquerda, caminhado uns dois quarteirões pelo acostamento, e dobrado numa esquina onde havia um posto de gasolina. Lembrei até que tinha de dobrar primeiro à direita, depois à esquerda - ou será que era o contrário? Bom. Não adiantava ficar parado - Jesus não ia descer numa nuvem para me guiar. Rezei para ir lembrando à medida que me aproximava da casa.

O posto de gasolina foi fácil. Entrei na rua do posto, porcamente iluminada pelas poucas lâmpadas que haviam escapado da sanha dos moleques, olhando com atenção para os dois lados, procurando alguma coisa, qualquer coisa, que parecesse familiar. Não havia viva alma, nem luzes acesas nas casas. Tudo o que podia ver era uma repetição monótona de portões, cercas e muros. Todos os terrenos eram rigorosamente do mesmo tamanho, todas as casas iguais, pequenos quadrados de madeira.

Aí aconteceu - eu tive uma visão. Uma janela se acendeu inesperadamente eu a vi pela primeira vez. Linda como um anjo, com os fartos cabelos encaracolados que formavam um halo em torno do rosto, movimentos graciosos, vestia uma camisola azul. Mesmo vista de longe, ela parecia respirar meiguice, carinho, amor. Mas a visão durou pouco. A luz se apagou e a escuridão voltou a envolver o mundo.

Fui seguindo em frente, as casas foram rareando, até que o calçamento acabou. O ruído inconfundível de uma Kombi chegou aos meus ouvidos. Longe ainda, mas se aproximando. Meu coração bateu mais forte. À esta hora da noite, só podia ser um feirante. Se conseguisse pegar uma carona até o mercado, poderia achar um táxi e votar para casa. Imagens de minha cama, quentinha e aconchegante, passavam por minha cabeça quando uma idéia horrível me ocorreu - quem é que ia dar carona a um desconhecido no meio da noite? Corri até o poste mais próximo, e me posicionei dentro do círculo de luz, para ter certeza de que o motorista ia me ver bem – um rapaz de boa família passando por dificuldades. Preguei na cara o sorriso mais simpático de meu repertório, e fiquei esperando que o carro se aproximasse. Rezei não sei para quem, com um fervor que nem sabia que tinha.



"Joli tambour, tu n'es pas assez riche. (bis)
Et ri et ran, ran pa ta plan,
Tu n'es pas assez riche."

Era um daqueles 'programas culturais' que, se você não visse (ou melhor, não fosse visto vendo), estava por fora. Vesti meus tênis novos, uma calça muito maneira de couro e uma jaqueta transada e, depois de me revisar pela terceira vez no espelho, tive certeza que estava um gato prá mulher nenhuma botar defeito. Me encontrei com a turma na frente do teatro. Por ‘turma’ entenda o pessoal da escola, quer dizer, as poucas cabeças feitas naquele mar de caretice. Tem mais múmia na minha escola que no Vale dos Reis, no Egito.

Estava o maior agito, todo mundo estava lá. Nossa turma em peso: o Marcelo, gente finíssima, Daniel e Mônica, Carla, minha paixão por muitos anos, o Augusto, que pode ser meio pinel, meio geninho, mas é boa gente, Cristina e este que vos fala.

Fiquei meio puto quando cheguei e descobri que os lugares que o Daniel tinha comprado eram no mezzanino. e na segunda fila ainda por cima! Santa incompetência! Mas o mau humor passou na hora quando vi a gata da janela! Era ela mesma, a menina da visão, e estava sentada na mesma fila que nós! Ela me pareceu ainda mais linda, mais divina, sob a luz branca do auditório. E não estava acompanhada, ladies and gentlemen! Fiquei todo ouriçado. Eu tinha de falar com ela, confessar o meu grande, imenso amor! Era minha chance. Ela nem aí, que este tipo de mulher não olha pra ninguém em público. Tem que chegar com muito jeito – e jeito, modéstia a parte, não me falta. Infelizmente, entre ela e eu, estava toda cambada. Fiquei a espreita de uma ocasião propícia prá mudar de lugar.

Enquanto esperava, arquitetando minha estratégia, vi com desgosto crescente um bando de nerds, todos gesticulando e falavando alto, chamando a atenção de todo mundo, e o pior: vinham em nossa direção. Ah, não, isto não, por favor! Eu conhecia estes caras. Compreendi que minha noite estava arruinada, caputz, finita. Vieram e sentaram bem à nossa frente, na primeira fila do mezzanino. Um dos idiotas subiu na amurada do mezzanino e se pôs a imitar (mal) as maneiras afetadas de um travesti. Tive impulsos de levantar da cadeira e ir esbofeteá-lo. Mas não tive tempo. Antes que eu me levantasse, o nerd conseguiu cometer a suprema idiotice – a Mãe de Todas Idiotices - perdeu o equilíbrio e se espatifou lá embaixo! Foi ploc! O mezzanino era alto. Parecia massa de tomate no meio do corredor.

A platéia enlouqueceu. Foi o estouro da boiada, fogo no teatro, a chegada do fim do mundo. Eu nem me mexi da cadeira. Eu é que não ia me misturar àquela multidão para ver a massa repelente que tinha sobrado dum palhaço esborrachado – não gosto dessas coisas, não paro para ver acidentes, não leio a página policial. Também não tinha pena do pobre diabo. O que eu lamentava, isso sim, é que eles tinham conseguido arruinar minha noite.

Foi então que senti um olhar sobre mim. Virei pro lado e era minha gata, a única outra pessoa que permanecia sentada no teatro, e que me olhava com enormes, lindos, olhos azuis. Olhei fundo, e vi dor nos olhos dela. Ela estava sofrendo por aquele filho da puta! Aquele monte de merda era gente aos olhos dela! Não acreditei, e pior, ela me estranhou. Ela penetrou fundo em mim, ela me achou frio, ela me achou egoísta, ela não acreditou quando percebeu que eu não sentia compaixão pelo infeliz!

Me senti um verme.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Weekend em familia


- Vamos para a Serra este fim de semana?
- Quem vai?
- Todo mundo. Mamãe, mana Ângela com o marido e o bebê, compadre Mário e família, todo mundo...
- Quantos?
- Uns nove, dez.
Era dezembro, terceiro ano na faculdade e primeiro no emprego, pouca grana. Sem contar o fora que tinha acabado de levar da Malú. Um ano foda. Precisava de um break. Ar puro. Silêncio.


A casa na Serra


Em frente à casa havia cinco ciprestes, todos musicais. Em frente à casa havia azáleas, dálias, cáctus, begônias, hortênsias, violetas úmidas e outras flores; havia um gramado que morria diante dos ciprestes. Atrás da casa, o morro se abria em vale. Em torno da casa havia silêncio, música de árvores tocadas pelo vento, interrompida de quando em vez por pássaros. Morros. Nas dobras dos morros, regatos.


A cobra

Alguém viu a cobra se mexendo sob as moitas e todos fugiram apavorados. A filha do compadre caiu na escada. A outra vomitou. Clara, que estava no jardim, acudiu correndo. Mamãe, que varria as folhas do gramado com um ancinho, parou onde estava. Ângela, que tomava um banho de imersão, nem se abalou. Mamãe deu o ancinho a compadre Mário e pediu que matasse a cobra. Não era uma cobra, era o rabo de um cachorro que dormia e sonhava debaixo da moita.


O jogo de disco

Às seis horas da tarde alguém se lembrou de jogar frisbee, mas ninguém sabia onde estava o disco. Clara correu para a casa e assomou pouco depois à porta, frisbee na mão, com um sorriso de triunfo no rosto. Inclinando o corpo com um gesto elegante, lançou o disco que, traçando uma larga elipse, foi pousar no topo de uma árvore. Paulo tentou que tentou desalojar o disco com uma vara comprida, mas não conseguiu. Desabou uma chuva torrencial. Choveu a noite toda. Na manhã seguinte, muito cedo, enquanto todos ainda dormiam, compadre Mário sacudiu a árvore e salvou o frisbee.


A chuva

No telhado, como mil espíritos ruins, a água e o vento roem as telhas. A água borbulha. Geme. Arranha. O silêncio veio de madrugada, depois os grilos, as rãs. Havia uma luazinha de vez em quando, muito fina e pontuda.


O programa

Canastra. Dominó. Xadrez. Damas. Ping-pong. Depois da chuva, pelada; caminhada na trilha, passeio a cavalo.


A segunda noite

Foi negra, funda, feita de coisas adivinhadas. Os cães corriam à minha frente e latiam, vendo inimigos que eu não via, e imaginava terríveis. Em torno da casa a árvores se acendiam em mil vagalumes, As nuvens mostravam e escondiam as estrelas. Uma noite prenhe.


Impressões

– Sobre o fim de semana? Muito bacana, passamos muito bem. Foi bom rever os pinheirais. (Ângela)

– Olha, é sempre um prazer rever as montanhas, poder sair a noite e ver estrelas. (Clara)

– Um hiato, um parêntese que surgiu entre os colchetes de nossa existência urbana. (Paulo)

– Sobre o fim de semana? Neste momento estou lendo “A Idade da Razão” de Jean Paul Sartre, um livro da Editora Abril. Queres que te dê uma opinião sobre Sartre? A filosofia ou o homem? Fiz uma pergunta, responde!
(Cala. Espera que eu fale).
- Sartre; o homem: uma pessoa comum, com idéias comuns, ligado a uma mulher comum, Simone de Beauvoir e, no entanto, que grandeza! A grandeza das coisas simples, das almas purificadas, dos sentimentos como o desabrochar de uma rosa, o amanhecer de um dia ...
(Cala. Considera com gravidade o que havia dito. Conclui)
- Nunca ninguém disse nada tão lindo sobre Sartre! Quanto à filosofia, de uma profundidade que a poucos é dado descobrir.
(Cala e se interroga)
A gente pode descobrir profundidade? (Conclui)
Pode. (Mamãe)


Ao Leitor

Ir – Verbo irregular. Pretérito Perfeito do Indicativo. Perfeitamente pretérito.

Eu fui à Serra.
Tu não foste
O compadre foi. Ela foi.
Nós fomos.
Vós não fostes.
Eles foram.
Ângela e Clara foram.

Moral: Quem foi, foi; quem não foi não foi.