sábado, 19 de maio de 2007

From Paris, with love


Os pacotes eram trazidos pelo correio, e o correio chegava de ônibus àquele povoado distante, escondido no alto da serra. “De ônibus” não era como se dizia naquele tempo, pós-guerra, anos 50 - todos falavam “veio na linha”. Nós ficávamos excitados só de ver os tais pacotes, que não se confundiam com os outros que o correio trazia, cartas, jornais e revistas enrolados, pequenas caixas contendo miudezas ou remédios; nossos pacotes eram diferentes, inconfundíveis.

Vinham sempre enrolados em papel encerado marrom com uma fita azul, vermelha e branca nas margens, e cobertos por uma quantidade imensa de selos, o nome do recipiente invariavelmente traçado em tinta verde. Nossa primeira preocupação era examinar ansiosamente os selos, para ver se eram novos ou repetidos. Tia Valentina, tiótia Valia para nós, tinha sempre o cuidado de incluir ao menos alguns selos comemorativos, grandes e coloridos, entre os muitos necessários para completar a postagem. Mais tarde, eles seriam descolados com vapor e acrescentados à coleção. Naqueles tempos, quando a sociedade de consumo ainda não havia chegado ao interior do Brasil, colecionávamos tudo – selos, conchas, borboletas, pedras brilhantes, estampas de sabonete, cartões de natal.

Nossa imaginação dava piruetas tentando adivinhar que tesouros se escondiam naquele pacote. O primeiro a chegar ao balcão e receber o pacote de dona Aracema, a encarregada dos correios, sacudia-o com as duas mãos para descobrir o que havia dentro pelo ruído, aproximando-o depois do nariz – nós adorávamos cheirar os pacotes, que tinham um cheirinho bom, uma mistura de papel encerado, cola, tinta de caneta e, quase imperceptível, um aroma adocicado de balas e chocolate.

Voltávamos para casa quase correndo, animados, disputando ruidosamente a honra de carregar o pacote. Não era longe. O povoado inteiro não tinha mais do que alguns quarteirões, com três ruas de terra correndo em um sentido, cortadas perpendicularmente por outras quatro. Morávamos na rua principal, onde estavam localizadas a igreja, o cartório, a escola e a estação.

Ir buscar a correspondência “na linha” era responsabilidade das crianças. Quando ouvíamos o ronco cansado e inconfundível do ônibus lutando para subir a última ladeira, antes de surgir no alto da capelinha de São Cristóvão, que marcava o início da vila, corríamos para a estação. Não éramos os únicos – a chegada da “linha” era o acontecimento mais importante do dia e toda população acorria para ver quem tinha chegado. O velho e decrépito ônibus, patrioticamente pintado de verde e amarelo, era a única ligação regular que a vila tinha com o mundo lá fora. A pobre e brava criatura, sobrecarregada de gente, malas forradas de lona, sacos, caixas, galinhas e cachorros, levava cinco horas para cobrir os oitenta e poucos quilômetros de estrada pedregosa e esburacada e os riachos sem ponte que nos separavam da cidade mais próxima. Quando o tempo estava firme, chegava perto do meio-dia; em época de chuvas chegava mais tarde, ás vezes noite fechada, às vezes no dia seguinte.

Meu pai era o único médico naquelas paragens e um exilado político. Havia fugido da Rússia na década de 1920, nos tempos conturbados que se seguiram ao golpe de estado Bolshevik, se instalando naquela povoação remota, no extremo sul do país, após anos de peregrinação por diversos países europeus. Antes de se decidir a abandonar a Europa para sempre, na véspera da Segunda Guerra Mundial, havia passado por Istambul, Nice, Hannover e Praga, onde havia se formado em medicina.

Em nossa imaginação tia Valentina, a irmã de papai que nunca havíamos visto, aparecia como uma personagem de contos de fadas. Ela vivia em Paris; ela havia sido atriz no teatro de Stanislavski; seu marido tocava violino e esculpia lindos bichinhos de madeira; e ela nos cumulava de presentes mágicos.

Tínhamos fotografias de Valia – ela havia sido linda em sua juventude, e emanava um ar de aristocracia e refinamento que contrastava com tudo que víamos naquela pobre vila de madeira perdida no meio do mato de araucárias. A fotografia de Valia aos dez anos, montada em um porta-retrato dourado, permaneceu sobre minha escrivaninha por toda infância e boa parte da adolescência – ela me lembrava Alice no País das Maravilhas.

A abertura dos pacotes era um ritual. Eram abertos por minha mãe, a única autorizada a celebrar o rito, depois do jantar. Mamãe abria o papel encerado solenemente, passando-o para minha irmã mais velha que, de tesoura na mão, esperava para separar a parte dos selos. Minha mãe ia retirando o conteúdo do pacote aos poucos, enfileirando os pacotinhos menores, enrolados em papel de presente colorido, à sua frente. Colado a cada presente, um pequeno cartão com o nome do felizardo. Nós éramos cinco, quatro irmãs e eu. Incapazes de conter a excitação, nos amontoávamos em torno da mesa de jantar, empurrando uns aos outros para chegar mais perto, espichando o pescoço para ler os nomes nos cartões. Tocar nos pacotes à esta altura era terminantemente proibido, e quem quebrasse a regra se arriscava a ser mandado para o quarto e perder todo a festa. Meu pai, à cabeceira da mesa, olhava a cena com evidente satisfação, um leve sorriso aflorando a seus lábios de vez em quando.

Finalmente, após esvaziar completamente a caixa, minha mãe pegava um pacotinho e lia um nome. A criança cujo nome havia sido chamado recebia o presente da mão de minha mãe e se apressava em abri-lo com os dedos impacientes e desajeitados, muitas vezes rasgando os papéis coloridos em que estavam enrolados, para o desgosto de Mamãe, que gostava de guardá-los para usá-los no futuro.

Havia sempre um saco grande de Pierrot Gourmand, umas balas francesas que adorávamos, e algumas barras de chocolate Suchard. As balas, deixadas sob a guarda severa da governanta russa, eram distribuídas em porções fixas a horas certas, e duravam semanas. Cada um de nós tinha direito a três balas de Pierrot Gourmand por dia, após a sobremesa. Já o chocolate, só era distribuído em grandes ocasiões, como Aniversários, o Natal ou a Páscoa.

Mas havia muito mais que balas e chocolate nos pacotes. Tia Valia mandava livros ilustrados em francês ou em russo, cartões que mostravam os castelos do Loire ou as obras primas do Louvre, figurinhas para colarmos em nossos cadernos, canetinhas diferentes, ursos, galos e outros animais em miniatura esculpidos na madeira por tio Mitia, bonecas vestindo trajes típicos de diferentes partes da França e da Espanha, bijuteria para as meninas, ovos de Páscoa de madeira decorados à maneira russa, e muitas outras maravilhas.

O encanto destes presentes durava semanas – semanas contando quantos Pierrot Gourmand cada um de nós ainda tinha, lendo e relendo os contos de cada livro, montando circos e zoológicos com os bichos em miniatura, estudando com afinco cada detalhe das gravuras, brincando com as bonecas, exibindo orgulhosamente as bijuterias, canetinhas e lápis para os amigos. Nosso mundo se enchia de magia e beleza. Havia presentes para minha mãe e meu pai também, é claro, mas destes nós não nos ocupávamos.

Anos mais tarde, quando já havia chegado à adolescência, pude conhecer tiótia Valia em pessoa. Era uma velhinha muito empertigada, que vivia em uma casa de repouso para exilados russos nas proximidades de Versailles. Não se parecia nada com Alice no País das Maravilhas ou com uma rainha de contos de fadas, ao menos aos meus olhos hiper-críticos de adolescente.

Mas os pacotes que nos enviava permanecerão para sempre mágicos em minha memória.

(novo texto – 27 de maio)

9 comentários:

Anônimo disse...

Acho que fale a pena ser editado! Seriam histórias fascinantes que nos fazem viajar no tempo...Pense com carinho nessa hipótese.
Muito bom!!
Um beijo, Tania

Anônimo disse...

Que delícia, Pettia. A gente "viaja" junto. Um beijo.
Lílian

Anônimo disse...

Gostei muito, Petia. É bom descobrir o amigo escritor. Você deve ter muitas outras histórias interessantes para contar - e contar bem, como esses dois textos que você publicou aqui. Vamos em frente, companheiro: queremos mais!

Anônimo disse...

Pettia,

Fiquei com um gostinho da "Pierrot Gourma" na boca !!!!!!!

Texto suave, bonito, carinhoso...............


Amei,

Beijos
Angela

Anônimo disse...

From Cazuza Ferreira, with nostalgia...
Sabia que meu amigo era um pintor fantástico, mas nunca imaginei que tivesse também habilidades literárias. Adorei a história (auto-biográfica), e me deu uma saudade louca dos Botovchenko!
Me lembrou muito - assunto e narrativa - o Carlos Heitor Cony em "Quase Memória".
Um grande abraço - Lyo

Tamara Botovchenco disse...

Petia,
Me emocionei muito com o texto.
Continue escrevendo e deleitando as nossas almas com essas viagens no tempo, no espaço. Viagens que nos transportam a lugares que já fomos e a situações que não vivemos, mas que de muitas maneiras, fazem parte de nossas vidas.
Beijo,
Tamara

Anônimo disse...

Tio, foi a história que mais gostei das tres que escreveste, tem certa nostalgia neste relato, e muito carinho.

Continua escrevendo!!!
Um beijo,
Anna Paola

Anônimo disse...

Hace unos días le encomendé a un amigo traernos de París unos "Pierre Gourmand". No los trajo y quedé en mal predicado con Nádia. ¿Porqué recuerdo esto, Pétia? Por tu escrito, por esta maravillosa crónica que, aunque en estilo y sintaxis muy actual, tiene el encanto de la sencillez, de un reencuentro con la inocencia aún no perdida, de la verdadera belleza...

¡Me encantan estas historias, cuentos o crónicas, Pétia! Y más cuando son autobiográficas...

Luiz Braga disse...

Seus comentarios me fizeram retornar ao passado.Sou natural de Cazuza.Minha mae é Tonolli e ainda vive e testemunha suas historias.Moramos na mesma rua na época de seus relatos e meus 2 irmaos Rubem e Beto o conheceram.
Gostaríamos de manter contato.
Um forte abraço.