Ele surgiu do nada. A mulher levantou os olhos do livro e viu o menino à porta, nitidamente recortado contra a luz abundante que vinha do jardim. Devia ter uns sete, oito anos, no máximo. Permaneceu alguns segundos em uma atitude de imobilidade elétrica, como um animalzinho erguido sobre as patas traseiras, movendo as orelhas, cheirando o ar, pronto a fugir ao menor sinal de perigo. Dois olhos inteligentes e ávidos esquadrinhavam a sala. Ela sorriu.
Convencido de que o lugar era seguro, ele relaxou e entrou na sala apontando para uma gravura medieval pendurada sobre o divã. “Eu sei o que é isso. Esse é o rei”, mostrou com o dedo, “esta é a rainha; este é sol e esta é a lua.” Disse e ficou olhando para ela, esperando sua reação. A gravura representava um mistério alquímico, a conjunctionis oppositorum, o Casamento do Sol e da Lua.
A terapeuta concordou sem se mover da poltrona, e apontou para outro quadro, na parede ao lado. “E aquele ali?” O menino pousou os olhos inquisitivos sobre o quadro e encolheu os ombros magros num movimento expressivo.
Era um quadro moderno, no qual as figuras de Teseu, do minotauro e do labirinto se sobrepunham e se misturavam, desafiando um reconhecimento à primeira vista. “Se você olhar bem”, disse ela, “vai enxergar uma cabeça de touro”.
Ela lembrava de ter visto o menino algumas vezes por ali, acompanhado do pai, tagarelando sem parar. Provavelmente um caso de DDA. Ela não trabalhava com crianças, mas algumas das salas da clínica eram usadas por profissionais especializados nesta área. Para ela, acostumada à ladainha e às queixas de executivas stressadas e donas-de-casa frustradas, a visita da criança era como uma lufada de ar fresco.
“Achei o touro”, exclamou o menino, orgulhoso como quem encontra a solução para um problema especialmente complexo. “E isto aqui, o que é?”, perguntou apanhando uma estatueta de cerâmica na prateleira. Era a reprodução de uma vênus paleolítica, toda seios e nádegas. Por um momento ela teve medo que o menino deixasse cair a frágil figura.
- “É uma mulher”, respondeu.
- “Não parece uma mulher”, comentou o menino, revirando a estátua na mão para vê-la de todos os lados.
- “Ela está sentada”, ajudou a terapeuta.
- “Ah! Entendi!,” exclamou o menino satisfeito, “mas a cabeça é muito pequena. A cabeça das mulheres não é tão pequena.”
Foram interrompidos por uma voz aflita. “Lucas! Cadê você?” Era o pai do menino. “O que é que está fazendo aqui?” perguntou, perdendo a urgência, ao enxergar o menino através da porta aberta.
A terapeuta viu a silhueta do pai contra a luz, como vira o menino há poucos minutos atrás. Era um homem ainda jovem, de boa aparência, e não parecia zangado com o filho. Dirigindo-se à doutora, explicou: “Eu só saí da recepção por um minuto, fui pegar os cigarros no carro, mas esse diabinho não para quieto. A senhora me desculpe.” Estava visivelmente embaraçado. A psicóloga que atendia o menino e a secretária da clínica vieram se juntar ao pai à porta, bloqueando completamente a entrada de luz.
O silêncio que se seguiu as palavras do pai foi rompido pelo ruído abafado de algo que se quebrava.
A terapeuta leu claramente o que acontecia no rosto dos visitantes – três pares de olhos se arregalaram em perfeita sincronia enquanto três queixos tombavam deixando três caretas de estupefação muda.
O que se seguiu pareceu à terapeuta o estouro de uma boiada assustada pela queda de um raio. Saltaram todos com ímpeto para dentro da sala, atropelando-se na porta, estreita demais para permitir a passagem simultânea dos três, correndo em direção ao menino, falando todos ao mesmo tempo, dirigindo-se, ora ao menino, ora à terapeuta, horrorizados diante do ocorrido, ralhando com o garoto, pedindo desculpas, prometendo que não aconteceria de novo.
O pai pegou o menino no colo, enquanto dizia à terapeuta que não se preocupasse com o prejuízo, que pagaria por tudo. A psicóloga infantil continuava falando ao menino sem parar, seguindo o pai como um cachorrinho segue o dono. O menino era o único que não parecia perturbado. Olhava tudo com indiferença mesclada de curiosidade. O pai continuava falando em pagar pelo prejuízo, que podia dar um cheque agora mesmo, que bastava que a terapeuta dissesse o valor. A secretária, ajoelhada, juntava os cacos. De nada adiantou a terapeuta dizer que não tinha importância, que o menino não a importunara, que a cerâmica não tinha valor, não passava de um souvenir que trouxera de uma viagem à Europa. Nenhum dos três a ouvia, de tão mobilizados que estavam. Repetiam obsessivamente as mesmas explicações e desculpas.
Finalmente a campainha da porta da clínica tocou e a secretária foi atender, levando consigo os cacos. Antes de desaparecer carregado pelo pai, o menino abanou para a terapeuta:
- “Gostei muito de conhecer sua sala”, gritou ele enquanto se afastava.
- “E eu adorei sua visita”, respondeu a terapeuta com sinceridade, enquanto devolvia a saudação.
Quando o silêncio e a calma voltaram, ela deu um suspiro fundo e ficou longo tempo imóvel, o olhar perdido, pairando sobre o jardim ensolarado que se via através da janela.
4 comentários:
Simplesmente fantástico.
Cecília
Bonito! Vai ter continuação?? :)
O design também ficou jóia!!
Bjo
Tati :)
Muito, muito bom Pedro! Tem mais escritos assim? Daqui a pouco pode juntar pra publicar. =)
Beijos
Bia
Li agora e gostei.
O texto é quase uma pintura, consegui visualizar toda a cena.
Um bom começo!!!
Niura
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