sábado, 26 de maio de 2007

uma executiva de futuro

Hoje é meu aniversário, pensou, desligando o despertador com um gesto automático. Era sábado. Cinco e quarenta e cinco. Tinha uma reunião na fábrica, em São Caetano, às sete e meia. Ergueu-se na cama ainda tonta de sono, o corpo dolorido pelas quatro horas de espera no aeroporto, seguidas de mais três horas presa ao assento espremido da classe turista.

Abriu a janela com vista para o parque. Uma lufada de ar frio entrou no quarto. Lembrou da janela que dava para o muro do vizinho, na casa acanhada onde havia crescido, do pai incapacitado, da mãe sofrida. Sentiu uma pontada de culpa. Preciso ligar para mamãe, pensou, hoje, sem falta. Não posso esquecer.

Tomou uma ducha rápida, um iogurte light e desceu para a garagem. Não havia trânsito ainda, e ela abriu a janela do carro para curtir o ar fresco da manhã. Sentia-se revigorada. Adorava dirigir àquela hora, com a rua toda para si. Alguns trabalhadores já se dirigiam à estação de metrô, encolhidos de frio. O carro, um Honda novinho, deslizava silenciosamente pelo asfalto orvalhado.

Sou mesmo uma privilegiada, pensou, vendo o povo amontoado nas paradas ou indo a pé para o trabalho. Faço trinta e dois anos hoje e já tenho um Hondinha lindinho, um apartamento com vista para o parque e um cargo de responsabilidade em uma multinacional. Hoje é meu aniversário, vou passar a noite cercada de gente bonita, meus amigos, meu namorado (aí a coisa já não ia tão bem – precisava acertar as pontas com o Renato).

Repassou mentalmente a pauta da reunião, o teste final do produto (não é de minha responsabilidade), a estratégia para o lançamento (é aqui que eu entro). Apalpou a bolsa para ver se não havia esquecido a pasta com as últimas pesquisas. Tranqüilizou-se. Estava tudo ali.

O celular tocou. Era da fábrica de São Caetano. A reunião havia sido cancelada. Um produto indispensável para o teste estava retido na alfândega. Ela já havia saído de casa? Estava quase chegando, suspirou. O diretor sentia muito.

Melhor assim, pensou, procurando o primeiro retorno, vai dar tempo de tirar um cochilo e dar uma geral no apartamento. Aquela viagem ao Chile não estava no programa. Só tinha sido avisada na terça, depois do expediente. O chefe ligou para o celular dizendo que havia pintado uma emergência, que ela tinha de embarcar sem falta na manhã seguinte. Foi aí que ela lembrou do aniversário no sábado e quase teve um xilique. E agora? Cancelava tudo? A idéia da festa havia surgido de estalo, domingo passado, no churrasco da Rita, e ainda não tinha organizado nada. Sua faxineira, por azar, estava grávida. O apartamento não era limpo há umas duas semanas. Foi Rita, para quem ligou em pânico, quem a tirou da enrascada. Prometendo mandar a filha da empregada fazer uma faxina. Tinha até se encarregado de contratar um chef para preparar o jantar. A Rita era um anjo.

A reação do Renato já não tinha sido tão boa. Fazia tempo que as coisas não iam muito bem entre eles. Precisavam conversar. Ele andava emburrado, reclamando que namorava um fantasma, que ela nunca tinha tempo para ele. Isto era injusto. Ela ligava todos os dias e saía para a balada sempre que podia. Renato precisava entender que ela tinha compromissos.

Desligou os faroletes. Já estava claro e o trânsito estava ficando complicado. Pensou com prazer na cama quentinha que a esperava. Só mais uns minutinhos e estaria em casa... Se pusesse o despertador para as onze, ainda daria tempo de fazer tudo. O celular tocou. Era o chefe. Haviam conseguido o produto que faltava e a reunião estava de pé. Quanto tempo levaria para chegar a São Caetano? Uma hora, uma hora e meia, dependendo do trânsito. Estava a caminho.

Desligou o celular, conteve a frustração e pensou – a reunião é importante. Sentia-se exausta, exaurida, gasta. Lembrou da mala aberta no meio da sala, dos sapatos, calcinhas e soutiens espalhados sobre o sofá e o tapete. Havia chegado às dez e meia da noite, depois de quatro horas esperando por uma conexão. Havia chegado morta, mal teve forças para ligar para o namorado e tomar uma ducha antes de desmaiar na cama (e o Renato ainda queria que ela fosse se encontrar com ele numa balada!).

Os carros a sua frente começavam a diminuir a velocidade. Foram diminuindo, diminuindo, até que a avenida inteira parou. Um acidente, pensou. Sirenes, as luzes da polícia piscando alguns quilômetros à frente. De repente, bateu uma vontade besta de chorar. Ela não merecia isto. Era seu aniversário, pelo amor de Deus! Quando é que isso ia acabar? A que horas ia conseguir chegar em casa? Não havia bebidas no apartamento, lembrou. Ia ter de falar com Renato, ele ia ter de quebrar este galho. Mas a essa hora ele ainda estava dormindo. Não tinha coragem de acordá-lo. Podia ligar mais tarde. Lembrou-se de ligar para a mãe, mas desistiu – mamãe vai insistir que eu almoce com eles no domingo e não vai entender que tudo o que eu quero é dormir, dormir, dormir, com o Renato ao meu lado de preferência, e depois passar o domingo de bobeira, na cama. E se eu disser ao Renato que vou almoçar com minha família no domingo, acabou.

Renato... o que estava acontecendo com ele? Andava frio, distante, sempre reclamando de alguma bobagem. Ele precisava entender que ela não era dona de seu tempo, que, se pudesse, passaria o dia namorando, sairia todas as noites para a balada. Mas que já tinha sido obrigada a desistir do inglês, da yoga e das aulas de fotografia, que adorava, por falta de tempo. Tinha perdido contato com a turma da faculdade, raramente ia a shows, ao cinema de vez em quando. Só não abria mão da academia, todas manhãs. E, depois da promoção, até à academia andava faltando.

A policia levou uns vinte minutos para desimpedir a pista. O trânsito começou a se mover, lentamente no começo, depois foi pegando velocidade. Com toda a confusão e os atrasos, a reunião, que devia ter acabado às onze, acabou às três. Chegou em casa quase às cinco. Mal teve tempo de enfiar a mala com tudo dentro em um closet, dar uma ajeitada na casa, fazer as unhas e trocar de roupa quando o interfone tocou. Era o chef e sua equipe. Lembrou-se das bebidas, e que não havia ligado para Renato. Ele atendeu o celular no carro, estava a caminho, e não gostou nada de ter de parar no supermercado para comprar as bebidas.

Os convidados começaram a chegar às sete e meia. Depois do segundo drinque, ela começou a se sentir mais solta, mais animada, a se divertir. Tinha a impressão que Renato a evitava, mas resolveu não dar bola. Podiam se entender depois da festa, quando ficassem a sós. O jantar estava divino, mas o cansaço começava a pesar. Depois do quarto ou quinto drinque, e do primeiro baseado, passou a ver tudo através de uma bruma. Não agüentava mais dançar. Não podia ficar sentada por que os olhos se fechavam sozinhos. Tinha vagas recordações de ver Renato na maior animação com uma loura horrorosa - quem tinha convidado aquela bruxa? Não lembrava como a festa acabara.

Quando acordou, no dia seguinte, eram onze horas e estava sozinha. Abriu a janela que dava para o parque. A luz clara do domingo ensolarado entrou no quarto, trazendo o ruído de vozes animadas, de pessoas alegres, brincando ao sol.

Voltou para a cama e chorou até as duas.

sábado, 19 de maio de 2007

From Paris, with love


Os pacotes eram trazidos pelo correio, e o correio chegava de ônibus àquele povoado distante, escondido no alto da serra. “De ônibus” não era como se dizia naquele tempo, pós-guerra, anos 50 - todos falavam “veio na linha”. Nós ficávamos excitados só de ver os tais pacotes, que não se confundiam com os outros que o correio trazia, cartas, jornais e revistas enrolados, pequenas caixas contendo miudezas ou remédios; nossos pacotes eram diferentes, inconfundíveis.

Vinham sempre enrolados em papel encerado marrom com uma fita azul, vermelha e branca nas margens, e cobertos por uma quantidade imensa de selos, o nome do recipiente invariavelmente traçado em tinta verde. Nossa primeira preocupação era examinar ansiosamente os selos, para ver se eram novos ou repetidos. Tia Valentina, tiótia Valia para nós, tinha sempre o cuidado de incluir ao menos alguns selos comemorativos, grandes e coloridos, entre os muitos necessários para completar a postagem. Mais tarde, eles seriam descolados com vapor e acrescentados à coleção. Naqueles tempos, quando a sociedade de consumo ainda não havia chegado ao interior do Brasil, colecionávamos tudo – selos, conchas, borboletas, pedras brilhantes, estampas de sabonete, cartões de natal.

Nossa imaginação dava piruetas tentando adivinhar que tesouros se escondiam naquele pacote. O primeiro a chegar ao balcão e receber o pacote de dona Aracema, a encarregada dos correios, sacudia-o com as duas mãos para descobrir o que havia dentro pelo ruído, aproximando-o depois do nariz – nós adorávamos cheirar os pacotes, que tinham um cheirinho bom, uma mistura de papel encerado, cola, tinta de caneta e, quase imperceptível, um aroma adocicado de balas e chocolate.

Voltávamos para casa quase correndo, animados, disputando ruidosamente a honra de carregar o pacote. Não era longe. O povoado inteiro não tinha mais do que alguns quarteirões, com três ruas de terra correndo em um sentido, cortadas perpendicularmente por outras quatro. Morávamos na rua principal, onde estavam localizadas a igreja, o cartório, a escola e a estação.

Ir buscar a correspondência “na linha” era responsabilidade das crianças. Quando ouvíamos o ronco cansado e inconfundível do ônibus lutando para subir a última ladeira, antes de surgir no alto da capelinha de São Cristóvão, que marcava o início da vila, corríamos para a estação. Não éramos os únicos – a chegada da “linha” era o acontecimento mais importante do dia e toda população acorria para ver quem tinha chegado. O velho e decrépito ônibus, patrioticamente pintado de verde e amarelo, era a única ligação regular que a vila tinha com o mundo lá fora. A pobre e brava criatura, sobrecarregada de gente, malas forradas de lona, sacos, caixas, galinhas e cachorros, levava cinco horas para cobrir os oitenta e poucos quilômetros de estrada pedregosa e esburacada e os riachos sem ponte que nos separavam da cidade mais próxima. Quando o tempo estava firme, chegava perto do meio-dia; em época de chuvas chegava mais tarde, ás vezes noite fechada, às vezes no dia seguinte.

Meu pai era o único médico naquelas paragens e um exilado político. Havia fugido da Rússia na década de 1920, nos tempos conturbados que se seguiram ao golpe de estado Bolshevik, se instalando naquela povoação remota, no extremo sul do país, após anos de peregrinação por diversos países europeus. Antes de se decidir a abandonar a Europa para sempre, na véspera da Segunda Guerra Mundial, havia passado por Istambul, Nice, Hannover e Praga, onde havia se formado em medicina.

Em nossa imaginação tia Valentina, a irmã de papai que nunca havíamos visto, aparecia como uma personagem de contos de fadas. Ela vivia em Paris; ela havia sido atriz no teatro de Stanislavski; seu marido tocava violino e esculpia lindos bichinhos de madeira; e ela nos cumulava de presentes mágicos.

Tínhamos fotografias de Valia – ela havia sido linda em sua juventude, e emanava um ar de aristocracia e refinamento que contrastava com tudo que víamos naquela pobre vila de madeira perdida no meio do mato de araucárias. A fotografia de Valia aos dez anos, montada em um porta-retrato dourado, permaneceu sobre minha escrivaninha por toda infância e boa parte da adolescência – ela me lembrava Alice no País das Maravilhas.

A abertura dos pacotes era um ritual. Eram abertos por minha mãe, a única autorizada a celebrar o rito, depois do jantar. Mamãe abria o papel encerado solenemente, passando-o para minha irmã mais velha que, de tesoura na mão, esperava para separar a parte dos selos. Minha mãe ia retirando o conteúdo do pacote aos poucos, enfileirando os pacotinhos menores, enrolados em papel de presente colorido, à sua frente. Colado a cada presente, um pequeno cartão com o nome do felizardo. Nós éramos cinco, quatro irmãs e eu. Incapazes de conter a excitação, nos amontoávamos em torno da mesa de jantar, empurrando uns aos outros para chegar mais perto, espichando o pescoço para ler os nomes nos cartões. Tocar nos pacotes à esta altura era terminantemente proibido, e quem quebrasse a regra se arriscava a ser mandado para o quarto e perder todo a festa. Meu pai, à cabeceira da mesa, olhava a cena com evidente satisfação, um leve sorriso aflorando a seus lábios de vez em quando.

Finalmente, após esvaziar completamente a caixa, minha mãe pegava um pacotinho e lia um nome. A criança cujo nome havia sido chamado recebia o presente da mão de minha mãe e se apressava em abri-lo com os dedos impacientes e desajeitados, muitas vezes rasgando os papéis coloridos em que estavam enrolados, para o desgosto de Mamãe, que gostava de guardá-los para usá-los no futuro.

Havia sempre um saco grande de Pierrot Gourmand, umas balas francesas que adorávamos, e algumas barras de chocolate Suchard. As balas, deixadas sob a guarda severa da governanta russa, eram distribuídas em porções fixas a horas certas, e duravam semanas. Cada um de nós tinha direito a três balas de Pierrot Gourmand por dia, após a sobremesa. Já o chocolate, só era distribuído em grandes ocasiões, como Aniversários, o Natal ou a Páscoa.

Mas havia muito mais que balas e chocolate nos pacotes. Tia Valia mandava livros ilustrados em francês ou em russo, cartões que mostravam os castelos do Loire ou as obras primas do Louvre, figurinhas para colarmos em nossos cadernos, canetinhas diferentes, ursos, galos e outros animais em miniatura esculpidos na madeira por tio Mitia, bonecas vestindo trajes típicos de diferentes partes da França e da Espanha, bijuteria para as meninas, ovos de Páscoa de madeira decorados à maneira russa, e muitas outras maravilhas.

O encanto destes presentes durava semanas – semanas contando quantos Pierrot Gourmand cada um de nós ainda tinha, lendo e relendo os contos de cada livro, montando circos e zoológicos com os bichos em miniatura, estudando com afinco cada detalhe das gravuras, brincando com as bonecas, exibindo orgulhosamente as bijuterias, canetinhas e lápis para os amigos. Nosso mundo se enchia de magia e beleza. Havia presentes para minha mãe e meu pai também, é claro, mas destes nós não nos ocupávamos.

Anos mais tarde, quando já havia chegado à adolescência, pude conhecer tiótia Valia em pessoa. Era uma velhinha muito empertigada, que vivia em uma casa de repouso para exilados russos nas proximidades de Versailles. Não se parecia nada com Alice no País das Maravilhas ou com uma rainha de contos de fadas, ao menos aos meus olhos hiper-críticos de adolescente.

Mas os pacotes que nos enviava permanecerão para sempre mágicos em minha memória.

(novo texto – 27 de maio)

terça-feira, 8 de maio de 2007

Fragilidade

Ele surgiu do nada. A mulher levantou os olhos do livro e viu o menino à porta, nitidamente recortado contra a luz abundante que vinha do jardim. Devia ter uns sete, oito anos, no máximo. Permaneceu alguns segundos em uma atitude de imobilidade elétrica, como um animalzinho erguido sobre as patas traseiras, movendo as orelhas, cheirando o ar, pronto a fugir ao menor sinal de perigo. Dois olhos inteligentes e ávidos esquadrinhavam a sala. Ela sorriu.

Convencido de que o lugar era seguro, ele relaxou e entrou na sala apontando para uma gravura medieval pendurada sobre o divã. “Eu sei o que é isso. Esse é o rei”, mostrou com o dedo, “esta é a rainha; este é sol e esta é a lua.” Disse e ficou olhando para ela, esperando sua reação. A gravura representava um mistério alquímico, a conjunctionis oppositorum, o Casamento do Sol e da Lua.

A terapeuta concordou sem se mover da poltrona, e apontou para outro quadro, na parede ao lado. “E aquele ali?” O menino pousou os olhos inquisitivos sobre o quadro e encolheu os ombros magros num movimento expressivo.

Era um quadro moderno, no qual as figuras de Teseu, do minotauro e do labirinto se sobrepunham e se misturavam, desafiando um reconhecimento à primeira vista. “Se você olhar bem”, disse ela, “vai enxergar uma cabeça de touro”.

Ela lembrava de ter visto o menino algumas vezes por ali, acompanhado do pai, tagarelando sem parar. Provavelmente um caso de DDA. Ela não trabalhava com crianças, mas algumas das salas da clínica eram usadas por profissionais especializados nesta área. Para ela, acostumada à ladainha e às queixas de executivas stressadas e donas-de-casa frustradas, a visita da criança era como uma lufada de ar fresco.

“Achei o touro”, exclamou o menino, orgulhoso como quem encontra a solução para um problema especialmente complexo. “E isto aqui, o que é?”, perguntou apanhando uma estatueta de cerâmica na prateleira. Era a reprodução de uma vênus paleolítica, toda seios e nádegas. Por um momento ela teve medo que o menino deixasse cair a frágil figura.

- “É uma mulher”, respondeu.

- “Não parece uma mulher”, comentou o menino, revirando a estátua na mão para vê-la de todos os lados.

- “Ela está sentada”, ajudou a terapeuta.

- “Ah! Entendi!,” exclamou o menino satisfeito, “mas a cabeça é muito pequena. A cabeça das mulheres não é tão pequena.”

Foram interrompidos por uma voz aflita. “Lucas! Cadê você?” Era o pai do menino. “O que é que está fazendo aqui?” perguntou, perdendo a urgência, ao enxergar o menino através da porta aberta.

A terapeuta viu a silhueta do pai contra a luz, como vira o menino há poucos minutos atrás. Era um homem ainda jovem, de boa aparência, e não parecia zangado com o filho. Dirigindo-se à doutora, explicou: “Eu só saí da recepção por um minuto, fui pegar os cigarros no carro, mas esse diabinho não para quieto. A senhora me desculpe.” Estava visivelmente embaraçado. A psicóloga que atendia o menino e a secretária da clínica vieram se juntar ao pai à porta, bloqueando completamente a entrada de luz.

O silêncio que se seguiu as palavras do pai foi rompido pelo ruído abafado de algo que se quebrava.

A terapeuta leu claramente o que acontecia no rosto dos visitantes – três pares de olhos se arregalaram em perfeita sincronia enquanto três queixos tombavam deixando três caretas de estupefação muda.

O que se seguiu pareceu à terapeuta o estouro de uma boiada assustada pela queda de um raio. Saltaram todos com ímpeto para dentro da sala, atropelando-se na porta, estreita demais para permitir a passagem simultânea dos três, correndo em direção ao menino, falando todos ao mesmo tempo, dirigindo-se, ora ao menino, ora à terapeuta, horrorizados diante do ocorrido, ralhando com o garoto, pedindo desculpas, prometendo que não aconteceria de novo.

O pai pegou o menino no colo, enquanto dizia à terapeuta que não se preocupasse com o prejuízo, que pagaria por tudo. A psicóloga infantil continuava falando ao menino sem parar, seguindo o pai como um cachorrinho segue o dono. O menino era o único que não parecia perturbado. Olhava tudo com indiferença mesclada de curiosidade. O pai continuava falando em pagar pelo prejuízo, que podia dar um cheque agora mesmo, que bastava que a terapeuta dissesse o valor. A secretária, ajoelhada, juntava os cacos. De nada adiantou a terapeuta dizer que não tinha importância, que o menino não a importunara, que a cerâmica não tinha valor, não passava de um souvenir que trouxera de uma viagem à Europa. Nenhum dos três a ouvia, de tão mobilizados que estavam. Repetiam obsessivamente as mesmas explicações e desculpas.

Finalmente a campainha da porta da clínica tocou e a secretária foi atender, levando consigo os cacos. Antes de desaparecer carregado pelo pai, o menino abanou para a terapeuta:

- “Gostei muito de conhecer sua sala”, gritou ele enquanto se afastava.

- “E eu adorei sua visita”, respondeu a terapeuta com sinceridade, enquanto devolvia a saudação.

Quando o silêncio e a calma voltaram, ela deu um suspiro fundo e ficou longo tempo imóvel, o olhar perdido, pairando sobre o jardim ensolarado que se via através da janela.