sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Cat Strikes Again



Fille du roi était a sa fenêtre. (bis)
Et ri et ran, ran pa ta plan,
Était a sa fenêtre.

Quando dezembro chega, na minha escola, a direção fica inventando coisas prá preencher a carga horária. Não sei como é que conseguem pensar em tanta coisa chata (deve ser um talento natural), mas a gente comparece por que não tem o que fazer, e prá ver a turma. No meu caso, por que estou sempre a perigo de ser reprovado por excesso de faltas.
Desta vez eles tinham pensado em algo grande, imensamente chato mesmo – tinham convidado o mais alto Dignitário, o Grande Líder da República, para falar aos alunos. Além da palestra no auditório maior, para toda escola, o figurão ia ter um “papo íntimo” com um grupo de alunos premiados, é óbvio, por deu comportamento exemplar. Meu instinto natural me avisava para manter distância deste pessoal, mas como nada é perfeito, uma das premiadas era Verinha, um primor de menina, com quem eu tava ficando há uma semana.
Foi assim que aconteceu. No dia do grande evento, ela pediu que eu a acompanhasse até o auditório e estávamos de mãozinhas dadas, no maior love, quando bum! um segurança imenso bloqueia a porta e o Presidente, mais a Diretora e os outros maiorais da escola, entram e se dirigem à mesa de honra que havia sido armada na frente da sala. Gelei. Isso ia dar expulsão na certa, se não me confundissem com um terrorista, ou coisa pior. Abri mão imediatamente de todas minhas idéias anarquistas e subversivas e me dei conta que, sob tortura, eu confessaria qualquer coisa.
Sem saída, encostei-me a uma parede e fiz um esforço para me tornar invisível. Funcionou até certo ponto, pois como todas alunas estavam em pé (só havia garotas), me escondiam. E foi só aí que compreendi porque tinham recebido o premio por bom comportamento: disciplina! E que disciplina! Elas funcionavam como uma máquina. Cantaram um coral em homenagem ao Homem, em várias vozes, que continha primores como “magnânimo líder e exemplo varonil”, que só podia ser produto da psique senil do professor de música. Tive vontade de vomitar; o medo me impediu. Concluíram o canto e, com uma precisão que daria inveja a um sargento dos fuzileiros navais, encostaram as carteiras formando um tabuleiro de xadrez no meio do auditório. Algumas alunas afastaram-se para os lados da sala, enquanto trinta e duas delas subiam nas carteiras e faziam uma espécie de demonstração de ginástica ritmada, uma coreografia representando um jogo de xadrez. Evidente - o Grande Líder adorava xadrez! Por fim, perfilaram-se todas para ouvir a oração do Grande Líder. Para meu alivio, não iam sentar na presença do Grande Homem!
Olhei em torno, procurando alguma maneira de fugir sem ser notado. Impossível. Todas as portas estavam trancadas e havia homens da segurança por todos os lados. Neste momento, senti que a aluna a meu lado pegava minha mão e me dava uma apertadinha tranqüilizadora. Me senti melhor. Olhei para minha salvadora com o canto do olho e quase dei um grito. Era a gata do teatro! Não ouvi uma palavra do que o Líder falou. Minha cabeça girava.
Finalmente tudo acabou e ele saiu para a sala ao lado, seguido por todos puxa-sacos. A gatinha puxou-me pela mão e foi atrás. Ninguém nos impediu. Mais incrível ainda: encontramos o Magnânimo sozinho na sala, afundado em uma poltrona imensa, enrolado num cobertor xadrez. Parecia vovô esperando pelos netinhos. Fez sinal para que chegássemos mais perto e comentou que haviam iniciado o bailado com os mesmos movimentos que ele usara para abrir certa partida, que disputara com Churchill, em Castelnuovo, na campanha da Itália. Eu estava mudo, parado no meio da sala, sem saber o que dizer, e sentindo o toque quente da gata em minha mão.
Neste momento a diretora da escola entrou acompanhada por vários professores e alguns ministros. Olhou para mim surpresa e perguntou em tom severo.
- O que está fazendo aqui, Sr. Braga? Com permissão de quem invadiu a privacidade do presidente?
Tentei balbuciar uma resposta, mas a diretora não estava a fim de papo.
- Basta, Sr. Braga. Estou cansada de suas brincadeiras. Voltaremos a falar sobre isto em uma ocasião mais propícia. Retire-se imediatamente.
Eu não queria outra coisa, e saí pela primeira porta que encontrei aberta, passei algumas salas que não conhecia e fui dar num corredor comprido, que acabava num portão de ferro, que dava para a rua. Saí numa viela estreita com arquibancadas ao lado. As arquibancadas estavam lotadas de idiotas, que torciam como se fosse dia de clássico. Esperavam a saída do presidente. Ali, o esquema de segurança era muito maior que dentro da escola. Havia policiais militares de três em três metros e cordões de isolamento mantinham a pista livre. Olhando aquela alcatéia excitada, achei que a segurança presidencial tinha toda razão de se precaver. Mas ninguém me incomodou, nem a polícia, nem a torcida. Devo ter sido confundido com um dos organizadores do evento; tinha gente da escola ali: vi que o professor de educação física conversava com um dos gorilas. Botei meu ar mais sério e adulto e avancei sem olhar pros lados. Inutilmente: para meu pasmo e vergonha, minha mãe estava sentada na primeira fileira e começou a gritar assim que me viu. A velha ás vezes me mata de vergonha. Acho que ela também pensou que seu filhinho era um dos organizadores, por que gesticulava fazendo sinal para que eu subisse no pódio e distraísse a manada enquanto o Homem não vinha. “Fale de Astrologia Lógica!” berrava ela. A cambada de débeis mentais em torno dela quase morreu de rir com essa, e pôs-se a gritar em coro: “Astrologia Lógica! Astrologia Lógica!”
Escapei dali o mais rápido que pude e só me acalmei depois de pôr umas boas quadras entre mim e aquele bando de loucos. Resolvi fazer uma volta muito, muito longa, antes de voltar para casa. Precisava por minhas idéias em ordem.

sábado, 1 de setembro de 2007

E a pedra rolou

Chegando à orla da floresta, Dema sentou sobre uma pedra para se recuperar da longa caminhada. Diante dele, colinas. Aqui e ali, pequenos grupos de cabanas, que se acocoravam nas encostas, como galinhas. Uma estradinha serpenteava entre bosques e campos. Dia sombrio e triste. Nuvens negras ocultavam o sol, escurecendo a tarde como se a noite estivesse prestes a cair, quando passava pouco do meio dia.

A atenção de Dema foi atraída por um homem que ia pela estrada rolando uma pedra esférica a sua frente. Empurrando com dificuldade a pedra, que devia pesar mais de uma tonelada, o homem chegou ao pé de uma colina. Ao lado da estrada, a meio caminho do alto do morro, uma menina brincava com um viralata. O homem da pedra acenou para a menina, que acenou de volta. Neste momento, um raio de sol rompeu a barreira de nuvens e caiu diretamente sobre a menina, cujos cabelos brilharam como se fossem de ouro.

O homem devia ser teimoso e muito mais forte do que parecia, pois, após um minuto de descanso, voltou à tarefa. Dema olhava curioso. Duvidava que o homem conseguisse empurrar a pedra morro acima. Mas estava enganado. O homem, fazendo um esforço sobre-humano, suando profusamente, não dava sinais de desistir. Lentamente, palmo a palmo, ia empurrando a pedra inexoravelmente colina acima. Quando estava quase lá, escorregou. A pedra hesitou por um instante, e começou a rolar morro abaixo, devagar no princípio, mas cada vez mais rápido à medida que avançava.

Dema viu, horrorizado, que a pedra rolava em direção à menina. Á porta da cabana surgiu uma mulher que, ao ver o que estava acontecendo, deu um grito e correu para a filha. Tarde demais. A pedra atingiu a garota em cheio, esmagando-a contra o pó da estrada. A mulher se abraçava ao corpinho ensangüentado, uivando de dor. O cãozinho corria em círculos em torno do cadáver, latindo histericamente. Dema levantou-se de um pulo, sem poder acreditar no que via. Era terrível demais. Sentiu que seu olhar se toldava, que ia perder os sentidos.

Quando voltou a si, o dia continuava toldado e escuro. Sentou-se na pedra, pôs a cabeça entre as mãos, e chorou. Não conseguia tirar a visão da menina esmagada da cabeça. Não queria olhar naquela direção e ver a mancha de sangue escuro empapando o chão. Mas o que teriam feito o homem e a mulher enquanto ele estava desacordado? O que? Arriscou um olhar. Seu coração quase parou com o choque: lá estava a menina brincando com o viralata como se nada houvesse acontecido. E lá vinha o homem rolando a pedra à sua frente, se aproximando do pé da colina.

Dema viu, atônito, como tudo se repetia exatamente igual à primeira vez: o aceno do velho, o raio de sol que iluminava a menina por um segundo, a pedra empurrada com dificuldade morro acima, o escorregão, a mulher à porta, o atropelamento, seu desmaio.

Quando voltou a si pela segunda vez, e a cena começou a se repetir nos menores detalhes, compreendeu que havia entrado em outra dimensão, em uma dobra do tempo ou qualquer coisa do gênero, e que talvez estivesse preso a esta visão para toda a eternidade. Seria isto o inferno?

Seja o que for, é meu destino, pensou, e eu vou cumpri-lo o melhor que puder. Se eu descobrir o sentido desta cena, entenderei o sentido da vida. Abriu bem os olhos, abriu os ouvidos, abriu a mente, como um sábio que se prepara para decifrar uma mensagem de Deus.

A cena se repetia de forma idêntica, como um filme. Mas a cada vez que se repetia, Dema notava detalhes que não havia percebido nas vezes anteriores. Algumas coisas percebia com os olhos: o bordado de flores no vestido da menina, por exemplo, ou que a mãe estava bêbada quando aparecia à porta. Outras, com os ouvidos: o velho gritava algo em uma língua desconhecida, quando acenava para a menina, e quando ela era atingida pela pedra, o ruído de ossos esmagados. Nada mudava na cena, mas alguma coisa dentro dele se transformava. Primeiro foi o choque, que foi perdendo o impacto. Só desmaiou nas cinco ou seis primeiras vezes. A partir daí, seus olhos apenas se toldavam por alguns instantes antes que a cena se repetisse. Demorou muito mais tempo para que ele aceitasse a morte brutal da menina, mas acabou aceitando que a morte é a seqüência natural da vida.

Porém o que mais o intrigava na cena inteira era aquele raio de luz, surpreendente, inesperado, que iluminava a menina por um instante. A cada vez que a cena se repetia, sua fascinação com o raio de luz aumentava, enquanto que os outros elementos do drama iam perdendo importância. Tinha a impressão de que a luz ficava mais forte a cada repetição. Até que, num certo momento, anos mais tarde, tudo o mais se apagou e só restou a luz.

Então Dema compreendeu. Levantou da pedra onde estivera sentado, caminhou até a estrada, subiu a colina até chegar à cabana, e sentou no lugar exato onde ele sabia que o raio de sol ia bater.

Depois, pôs a menina no colo e ficou esperando a pedra.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Mangia, mangia che te fa bene

O sinal de Não Fume piscando bem à sua frente lembrou, por associação, as palavras severas do cardiologista: Nada de cigarros. Nada de álcool. Nada de gorduras. Pediu uma Coca Diet. O último enfarte havia sido o terceiro, e ele ainda não tinha chegado aos quarenta.
Resignado, tomou o copo plástico que a moça estendia por cima da senhora empertigada sentada na poltrona ao lado e voltou a atenção para a revista. Vôo tranqüilo, sem turbulência. Olhou o relógio: cinco e dez. Seis e meia, sete, no máximo, estariam aterrissando.
Alguns minutos mais tarde a aeromoça (que era uma gracinha) voltou, servindo aquela merda intragável que passava por almoço no avião. Que, pensando bem, não era muito pior que as porcarias que vinha comendo desde o primeiro enfarte, quando as dietas entraram em sua vida.
Ele era filho de italiano, porra, bom de cama e bom de garfo! O que ele mais amava na vida era uma boa pasta com molho à bolognesa, acompanhada de um vinho tinto bem escolhido! Ou uma costelinha de porco bem gorda, uma picanha mal passada com salada de maionese, uma feijoada... Dietas eram contra sua natureza, sua educação, seus princípios! Mas o médico não queria saber: Nada de excessos. Cuidado com o colesterol. Evite as gorduras.
Foi desviado destes pensamentos pela voz do comandante informando que estavam sobre o Paraná, altitude tal, velocidade de cruzeiro tal, e que toda a tripulação estava felicíssima por tê-lo a bordo. Que hipocrisia, pensou. Ele, de seu lado, preferia mil vezes estar longe dali, numa cantina, curtindo um filé à Chateaubriand ou degustando uma dose dupla de Johnnie Walker em boa companhia.
Mas o médico tinha razão. O último enfarte tinha sido o pior, e fora o terceiro. E ele ainda não tinha chegado aos quarenta. Precisava perder peso.
Maldita tendência a engordar! Vinha de família. Menos comida, mais exercício, tinha dito o médico. Estava certo. Passava a vida sentado. Em frente ao computador. Em frente à televisão. Dentro do carro. Em reunião.
Tem um parque a dois quarteirões de onde moro, pensou. Aliás, havia sido por isto mesmo que havia se mudado para lá. Por causa do parque. A partir da semana que vem, decidiu, ia dar uma caminhada todas as manhãs. Podia levar o cachorro. Que, por ironia, também precisava de exercício. Sua mulher ia adorar.
O comandante entrou no ar de novo para anunciar que estavam dando início às manobras para a aterrissagem. Chovia em Porto Alegre. Temperatura local, 12 graus centígrados. Ainda bem que havia trazido a gabardine e o guarda chuva.
Pensando bem, esta história de caminhada no parque não vai funcionar, concluiu. Ele se conhecia bem demais. Tinha muito sono de manhã. Nada, nem ninguém, ia conseguir fazê-lo acordar mais cedo para fazer exercício. Quem sabe uma academia?
A aeromoça passou de novo, desta vez para se certificar que todos haviam afivelado os cintos. Era uma japonesinha, uma boneca oriental.
Mas a que horas ia freqüentar uma academia? De manhã nem pensar. Ao meio dia como, se estava sempre almoçando com clientes? Depois do trabalho, as oito ou nove e meia? Sua mulher ia pedir o divórcio.
O avião tocou no solo com um baque, assustando os passageiros. Quando ficou evidente que o avião estava deslizando sobre a pista, um coro de ohs e ahs se ergueu de todos lados. Depois, foi o caos. As luzes do aeroporto e dos prédios em torno passavam a uma velocidade vertiginosa deixando rastos coloridos nas janelas molhadas. Vou morrer, pensou. Não tinha medo. Sentiu que o avião estava fazendo um cavalo de pau. Súbito, tudo parou. O único ruído era o som de sirenes ao longe, cada vez mais perto. A senhora imponente, sentada ao seu lado, caiu num choro histérico, tentando inutilmente se livrar do cinto. O resto se passou como num filme. Nada real. A tripulação surgiu trêmula da cabine, se esforçando para pôr um pouco de ordem na gritaria e no caos. A japonesinha parecia vestir uma máscara No, branca como a neve. A choradeira, a evacuação pela escada de emergência, a caminhada para sair do banhado onde o avião fora parar, a retirada com água preta e malcheirosa chegando à bunda, tudo aconteceu como se fosse com outra pessoa. Estava chocado demais para perceber quão perto da morte havia chegado.
Só saiu do choque ao chegar ao hotel, tomar um banho quente e trocar de roupa. Eu podia ter morrido, pensava obsessivamente, podia ter morrido. Teve uma hora que eu tinha certeza que todo mundo ia morrer, inclusive eu - eu, que sobrevivi a três enfartes! Eu que não bebo nem fumo, que vivo com fome para evitar o risco de enfarte! Pra que tanto sacrifício? Prá morrer numa aterrissagem besta em Porto Alegre? Eu quero ao menos estar de barriga cheia quando a morte chegar!
Desceu para o restaurante, escolheu uma mesa de canto, chamou o garçon e pediu uma garrafa de Johnnie Walker Black Label, dois maços de Marlboro e um isqueiro, o cardápio de entradas e o de vinhos.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

AS MONTANHAS DA LUA


-Dizem que nas Montanhas da Lua, onde nasce o Nilo, nasce também outro rio que, ao chegar ao mar, faz meia volta e retorna à nascente. Este é que seria o verdadeiro Nilo.
- Uhm, resmungou Ruth.
- É deste Nilo, o Nilo sagrado, que fala Platão, acrescentou Amália.
Lucas bocejou. Tinha custado a pegar no sono na noite anterior, excitado demais. Era a primeira vez que ia ficar um fim de semana inteiro longe dos pais. Tinha vontade de mijar, mas não tinha coragem de pedir a tio Henrique que parasse o carro. Tio Henrique, sério e inacessível, não havia aberto a boca desde que haviam saído de casa.

Henrique era o irmão mais velho da mãe de Lucas, mas Lucas achava que ele não gostava da irmã caçula. Ou talvez não gostasse do pai – diziam que tinha sido contra o casamento. O fato é que não se visitavam nunca, e tinham ficado todos surpresos quando tia Amália ligou convidando ‘o menino Lucas’ para passar um fim de semana na praia. Eles eram ricos – tinham casa na praia.

Levaram guarda-sol, cadeiras, toalhas, lanche, bronzeador, etc, etc, tanta coisa, que tiveram de fazer duas viagens para descarregar tudo. Tia Amália e tia Ruth passaram o dia deitadas lado a lado nas esteiras, se queimando ao sol, espalhando bronzeador no corpo e falando sem parar. Tio Henrique passou o dia tomando cerveja e observando os banhistas, sem dizer palavra. Lucas teve um dia maravilhoso, forrado de descobertas e emoções. Brincou no mar, escalou os rochedos, fez amigos e divertiu-se à larga. A praia era o paraíso.

Estava no chuveiro, feliz da vida, quando o telefone tocou. Do banheiro onde estava, Lucas ouvia a voz de tia Amália.
- Ele está ótimo, acabamos de chegar da praia. Estava um sol de rachar. (Lucas sabia que só podia ser sua mãe ligando para saber se estava se comportando)
- Não, não se preocupe. Ele passou protetor solar, que eu vi.
- ...
- Na idade dele? Não acredito!
- ...
- Não sei, acho que não tenho um plástico deste tamanho. Mas não se preocupe, que eu dou um jeito.

Lucas gelou. Seu humor mudou com a rapidez de que só um coração de criança é capaz. A alegria de viver, que vibrava em cada músculo e veia do corpo do menino, evaporou, substituída pela mais negra depressão. A vergonha o dominou, de mistura com indignação, raiva da mãe, revolta contra a crueldade dos adultos e a sensação de impotência. Por que sua mãe sempre tinha de fazer isto? Por que contar à tia Amália que ele mijava na cama? Era bem típico dela, humilhá-lo na frente do tio e das tias! E com que cara ele ia sair do banheiro agora? Com que cara ia passar o resto do fim de semana? Tinha vontade de sumir dali, enfiar-se num buraco e desaparecer para sempre.

Acordou assustado. Abriu os olhos, ainda tonto de sono, e viu o rosto de tia Amália muito perto do dele, sacudindo-o e chamando seu nome. Por trás dela, via a luz do quarto, acesa – ainda era noite. O que estava acontecendo?
- Fazer xixi, Lucas, fazer xixi!
A compreensão caiu como um raio em sua cabeça - tia Amália tinha vindo acordá-lo de madrugada para evitar que molhasse a cama - a cama dela. Pensou que ia morrer, sentiu que seu rosto ia ficando da cor de um tomate maduro. Tia Ruth também estava ali, para aumentar sua vergonha. Levantou-se com pressa, para acabar com aquela palhaçada, e dirigiu-se com passos indignados ao banheiro.
Mas foi só quando se viu sozinho no banheiro que a enormidade da humilhação o atingiu de cheio. Foi invadido por um ódio mortal, cego, assassino. Elas não tinham o direito de acordá-lo no meio da noite daquele jeito! Não tinham direito de espezinhar a frágil dignidade de um menino de nove anos, de submetê-lo àquela humilhação. Nem cachorro merecia aquilo! Elas iam ver! Isto não ficava assim! Sufocando de raiva e impotência, Lucas apertou os dentes para não chorar. Não ia dar a ninguém o prazer de vê-lo chorando. Enxugou as lágrimas e voltou para a cama, sem ter mijado, sem sono, desejando não ter vindo, desejando ir embora na manhã seguinte e nunca mais ver os tios de novo.
Tia Ruth entrou no quarto, apagou a luz e falou baixinho, como se estivesse dividindo um segredo:
- Não esquenta, fofo. O Ronaldinho também mijou na cama até os doze.
Apesar da profunda infelicidade que o dominava, Lucas acabou adormecendo, vencido pelo corpo jovem que exigia descanso. Mas nunca jamais perdoou à tia Amália aquela humilhação.


segunda-feira, 18 de junho de 2007

perdido na periferia


"Fille du roi était à sa fenêtre. (bis)
Et ri et ran, ran pa ta plan,
Était à sa fenêtre.”


A parada estava cheia, as usual, e o ônibus não vinha nunca. Como é que eu havia me metido nessa fria? Por ser trouxa, é claro, e por viver com a cabeça nas nuvens. Se não fosse tão idiota eu não teria topado quando minha mãe perguntou, com um sorriso irresistível, se eu não tava a fim de “aproveitar esta tarde liiinda e visitar tia Pombinha”. Normalmente eu teria recusado. Mas o trouxa aqui estava chapado e topou, e lá fomos nós, nos sacudindo num coletivo que atravessou todos os subúrbios que eu conhecia e mais alguns dos quais eu nunca tinha ouvido falar.

Reconheço que a tarde estava linda, e como eu tive a sorte incrível de pegar um lugar na janela, fui curtindo o visual - e esqueci da vida. Eu entro em alfa fácil, fácil. Felizmente a velha tava junto e não perdemos a parada, o que (confesso) é um hábito quando saio sozinho.

Tia Pombinha até que não é das piores, mas espetacular mesmo é a lazanha que ela faz. E foi a gula que acabou de me foder: “Fiquem para a janta que eu faço uma lazanha caprichada”. Resultado: lá estava eu, Ricardo Braga, 18 anos (incompletos; tá bom, tá bom, dezessete e meio!), apodrecendo numa parada no cú do mundo às onze da noite, barriga inchada de lazanha, e morrendo de sono. Tinha vontade de deitar ali mesmo, no chão.

Mas não dava. O máximo que consegui foi sentar numa pedra a alguns metros da parada, pondo uma distância crítica entre mim e o povinho. Estava fumando um e remoendo minha desgraça quando pimba! – um ônibus surgiu do nada. A multidão de retirantes que povoava o ponto se jogou contra o veículo com tal gana, que tive certeza que aquela lotação era a Última Esperança. Minha mãe já havia sido arrastada pela massa humana e gesticulava para mim de dentro do monstro. Parecia filme de guerra, A Evacuação de Stalingrado, ou algo no gênero. Voltei correndo para o ponto. Tarde demais. A porta fechou-se e o motorista arrancou com violência, certo de que, se acelerasse o suficiente, conseguiria derrubar os mais teimosos, que se agarravam desesperadamente à qualquer saliência na pele do monstro. Fiquei pregado ao chão, imaginando quantos dias teria de ficar nesta parada esperando a morte por inanição, quando me dei conta do pior: a velha ficara com todo dinheiro.

A parada ficava à beira de uma estradinha de merda – o pouco que ainda restava de asfalto estava se esfarelando, e havia mais buracos na pista do que espaço entre eles. O mato ao lado da estrada crescia com uma pujança digna da selva amazônica. Em frente à parada, a luzinha amarela de um poste solitário formava um círculo no chão. O resto era a noite. Eu não tinha escolha – tinha de voltar à casa da Tia Pombinha.

E era aí que a coisa ficava preta. Quem disse que eu sabia? Já confessei que sou meio avoado. E eu ia prestar atenção quando estava com minha mãe? Lembrei que tínhamos vindo da esquerda, caminhado uns dois quarteirões pelo acostamento, e dobrado numa esquina onde havia um posto de gasolina. Lembrei até que tinha de dobrar primeiro à direita, depois à esquerda - ou será que era o contrário? Bom. Não adiantava ficar parado - Jesus não ia descer numa nuvem para me guiar. Rezei para ir lembrando à medida que me aproximava da casa.

O posto de gasolina foi fácil. Entrei na rua do posto, porcamente iluminada pelas poucas lâmpadas que haviam escapado da sanha dos moleques, olhando com atenção para os dois lados, procurando alguma coisa, qualquer coisa, que parecesse familiar. Não havia viva alma, nem luzes acesas nas casas. Tudo o que podia ver era uma repetição monótona de portões, cercas e muros. Todos os terrenos eram rigorosamente do mesmo tamanho, todas as casas iguais, pequenos quadrados de madeira.

Aí aconteceu - eu tive uma visão. Uma janela se acendeu inesperadamente eu a vi pela primeira vez. Linda como um anjo, com os fartos cabelos encaracolados que formavam um halo em torno do rosto, movimentos graciosos, vestia uma camisola azul. Mesmo vista de longe, ela parecia respirar meiguice, carinho, amor. Mas a visão durou pouco. A luz se apagou e a escuridão voltou a envolver o mundo.

Fui seguindo em frente, as casas foram rareando, até que o calçamento acabou. O ruído inconfundível de uma Kombi chegou aos meus ouvidos. Longe ainda, mas se aproximando. Meu coração bateu mais forte. À esta hora da noite, só podia ser um feirante. Se conseguisse pegar uma carona até o mercado, poderia achar um táxi e votar para casa. Imagens de minha cama, quentinha e aconchegante, passavam por minha cabeça quando uma idéia horrível me ocorreu - quem é que ia dar carona a um desconhecido no meio da noite? Corri até o poste mais próximo, e me posicionei dentro do círculo de luz, para ter certeza de que o motorista ia me ver bem – um rapaz de boa família passando por dificuldades. Preguei na cara o sorriso mais simpático de meu repertório, e fiquei esperando que o carro se aproximasse. Rezei não sei para quem, com um fervor que nem sabia que tinha.



"Joli tambour, tu n'es pas assez riche. (bis)
Et ri et ran, ran pa ta plan,
Tu n'es pas assez riche."

Era um daqueles 'programas culturais' que, se você não visse (ou melhor, não fosse visto vendo), estava por fora. Vesti meus tênis novos, uma calça muito maneira de couro e uma jaqueta transada e, depois de me revisar pela terceira vez no espelho, tive certeza que estava um gato prá mulher nenhuma botar defeito. Me encontrei com a turma na frente do teatro. Por ‘turma’ entenda o pessoal da escola, quer dizer, as poucas cabeças feitas naquele mar de caretice. Tem mais múmia na minha escola que no Vale dos Reis, no Egito.

Estava o maior agito, todo mundo estava lá. Nossa turma em peso: o Marcelo, gente finíssima, Daniel e Mônica, Carla, minha paixão por muitos anos, o Augusto, que pode ser meio pinel, meio geninho, mas é boa gente, Cristina e este que vos fala.

Fiquei meio puto quando cheguei e descobri que os lugares que o Daniel tinha comprado eram no mezzanino. e na segunda fila ainda por cima! Santa incompetência! Mas o mau humor passou na hora quando vi a gata da janela! Era ela mesma, a menina da visão, e estava sentada na mesma fila que nós! Ela me pareceu ainda mais linda, mais divina, sob a luz branca do auditório. E não estava acompanhada, ladies and gentlemen! Fiquei todo ouriçado. Eu tinha de falar com ela, confessar o meu grande, imenso amor! Era minha chance. Ela nem aí, que este tipo de mulher não olha pra ninguém em público. Tem que chegar com muito jeito – e jeito, modéstia a parte, não me falta. Infelizmente, entre ela e eu, estava toda cambada. Fiquei a espreita de uma ocasião propícia prá mudar de lugar.

Enquanto esperava, arquitetando minha estratégia, vi com desgosto crescente um bando de nerds, todos gesticulando e falavando alto, chamando a atenção de todo mundo, e o pior: vinham em nossa direção. Ah, não, isto não, por favor! Eu conhecia estes caras. Compreendi que minha noite estava arruinada, caputz, finita. Vieram e sentaram bem à nossa frente, na primeira fila do mezzanino. Um dos idiotas subiu na amurada do mezzanino e se pôs a imitar (mal) as maneiras afetadas de um travesti. Tive impulsos de levantar da cadeira e ir esbofeteá-lo. Mas não tive tempo. Antes que eu me levantasse, o nerd conseguiu cometer a suprema idiotice – a Mãe de Todas Idiotices - perdeu o equilíbrio e se espatifou lá embaixo! Foi ploc! O mezzanino era alto. Parecia massa de tomate no meio do corredor.

A platéia enlouqueceu. Foi o estouro da boiada, fogo no teatro, a chegada do fim do mundo. Eu nem me mexi da cadeira. Eu é que não ia me misturar àquela multidão para ver a massa repelente que tinha sobrado dum palhaço esborrachado – não gosto dessas coisas, não paro para ver acidentes, não leio a página policial. Também não tinha pena do pobre diabo. O que eu lamentava, isso sim, é que eles tinham conseguido arruinar minha noite.

Foi então que senti um olhar sobre mim. Virei pro lado e era minha gata, a única outra pessoa que permanecia sentada no teatro, e que me olhava com enormes, lindos, olhos azuis. Olhei fundo, e vi dor nos olhos dela. Ela estava sofrendo por aquele filho da puta! Aquele monte de merda era gente aos olhos dela! Não acreditei, e pior, ela me estranhou. Ela penetrou fundo em mim, ela me achou frio, ela me achou egoísta, ela não acreditou quando percebeu que eu não sentia compaixão pelo infeliz!

Me senti um verme.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Weekend em familia


- Vamos para a Serra este fim de semana?
- Quem vai?
- Todo mundo. Mamãe, mana Ângela com o marido e o bebê, compadre Mário e família, todo mundo...
- Quantos?
- Uns nove, dez.
Era dezembro, terceiro ano na faculdade e primeiro no emprego, pouca grana. Sem contar o fora que tinha acabado de levar da Malú. Um ano foda. Precisava de um break. Ar puro. Silêncio.


A casa na Serra


Em frente à casa havia cinco ciprestes, todos musicais. Em frente à casa havia azáleas, dálias, cáctus, begônias, hortênsias, violetas úmidas e outras flores; havia um gramado que morria diante dos ciprestes. Atrás da casa, o morro se abria em vale. Em torno da casa havia silêncio, música de árvores tocadas pelo vento, interrompida de quando em vez por pássaros. Morros. Nas dobras dos morros, regatos.


A cobra

Alguém viu a cobra se mexendo sob as moitas e todos fugiram apavorados. A filha do compadre caiu na escada. A outra vomitou. Clara, que estava no jardim, acudiu correndo. Mamãe, que varria as folhas do gramado com um ancinho, parou onde estava. Ângela, que tomava um banho de imersão, nem se abalou. Mamãe deu o ancinho a compadre Mário e pediu que matasse a cobra. Não era uma cobra, era o rabo de um cachorro que dormia e sonhava debaixo da moita.


O jogo de disco

Às seis horas da tarde alguém se lembrou de jogar frisbee, mas ninguém sabia onde estava o disco. Clara correu para a casa e assomou pouco depois à porta, frisbee na mão, com um sorriso de triunfo no rosto. Inclinando o corpo com um gesto elegante, lançou o disco que, traçando uma larga elipse, foi pousar no topo de uma árvore. Paulo tentou que tentou desalojar o disco com uma vara comprida, mas não conseguiu. Desabou uma chuva torrencial. Choveu a noite toda. Na manhã seguinte, muito cedo, enquanto todos ainda dormiam, compadre Mário sacudiu a árvore e salvou o frisbee.


A chuva

No telhado, como mil espíritos ruins, a água e o vento roem as telhas. A água borbulha. Geme. Arranha. O silêncio veio de madrugada, depois os grilos, as rãs. Havia uma luazinha de vez em quando, muito fina e pontuda.


O programa

Canastra. Dominó. Xadrez. Damas. Ping-pong. Depois da chuva, pelada; caminhada na trilha, passeio a cavalo.


A segunda noite

Foi negra, funda, feita de coisas adivinhadas. Os cães corriam à minha frente e latiam, vendo inimigos que eu não via, e imaginava terríveis. Em torno da casa a árvores se acendiam em mil vagalumes, As nuvens mostravam e escondiam as estrelas. Uma noite prenhe.


Impressões

– Sobre o fim de semana? Muito bacana, passamos muito bem. Foi bom rever os pinheirais. (Ângela)

– Olha, é sempre um prazer rever as montanhas, poder sair a noite e ver estrelas. (Clara)

– Um hiato, um parêntese que surgiu entre os colchetes de nossa existência urbana. (Paulo)

– Sobre o fim de semana? Neste momento estou lendo “A Idade da Razão” de Jean Paul Sartre, um livro da Editora Abril. Queres que te dê uma opinião sobre Sartre? A filosofia ou o homem? Fiz uma pergunta, responde!
(Cala. Espera que eu fale).
- Sartre; o homem: uma pessoa comum, com idéias comuns, ligado a uma mulher comum, Simone de Beauvoir e, no entanto, que grandeza! A grandeza das coisas simples, das almas purificadas, dos sentimentos como o desabrochar de uma rosa, o amanhecer de um dia ...
(Cala. Considera com gravidade o que havia dito. Conclui)
- Nunca ninguém disse nada tão lindo sobre Sartre! Quanto à filosofia, de uma profundidade que a poucos é dado descobrir.
(Cala e se interroga)
A gente pode descobrir profundidade? (Conclui)
Pode. (Mamãe)


Ao Leitor

Ir – Verbo irregular. Pretérito Perfeito do Indicativo. Perfeitamente pretérito.

Eu fui à Serra.
Tu não foste
O compadre foi. Ela foi.
Nós fomos.
Vós não fostes.
Eles foram.
Ângela e Clara foram.

Moral: Quem foi, foi; quem não foi não foi.

sábado, 26 de maio de 2007

uma executiva de futuro

Hoje é meu aniversário, pensou, desligando o despertador com um gesto automático. Era sábado. Cinco e quarenta e cinco. Tinha uma reunião na fábrica, em São Caetano, às sete e meia. Ergueu-se na cama ainda tonta de sono, o corpo dolorido pelas quatro horas de espera no aeroporto, seguidas de mais três horas presa ao assento espremido da classe turista.

Abriu a janela com vista para o parque. Uma lufada de ar frio entrou no quarto. Lembrou da janela que dava para o muro do vizinho, na casa acanhada onde havia crescido, do pai incapacitado, da mãe sofrida. Sentiu uma pontada de culpa. Preciso ligar para mamãe, pensou, hoje, sem falta. Não posso esquecer.

Tomou uma ducha rápida, um iogurte light e desceu para a garagem. Não havia trânsito ainda, e ela abriu a janela do carro para curtir o ar fresco da manhã. Sentia-se revigorada. Adorava dirigir àquela hora, com a rua toda para si. Alguns trabalhadores já se dirigiam à estação de metrô, encolhidos de frio. O carro, um Honda novinho, deslizava silenciosamente pelo asfalto orvalhado.

Sou mesmo uma privilegiada, pensou, vendo o povo amontoado nas paradas ou indo a pé para o trabalho. Faço trinta e dois anos hoje e já tenho um Hondinha lindinho, um apartamento com vista para o parque e um cargo de responsabilidade em uma multinacional. Hoje é meu aniversário, vou passar a noite cercada de gente bonita, meus amigos, meu namorado (aí a coisa já não ia tão bem – precisava acertar as pontas com o Renato).

Repassou mentalmente a pauta da reunião, o teste final do produto (não é de minha responsabilidade), a estratégia para o lançamento (é aqui que eu entro). Apalpou a bolsa para ver se não havia esquecido a pasta com as últimas pesquisas. Tranqüilizou-se. Estava tudo ali.

O celular tocou. Era da fábrica de São Caetano. A reunião havia sido cancelada. Um produto indispensável para o teste estava retido na alfândega. Ela já havia saído de casa? Estava quase chegando, suspirou. O diretor sentia muito.

Melhor assim, pensou, procurando o primeiro retorno, vai dar tempo de tirar um cochilo e dar uma geral no apartamento. Aquela viagem ao Chile não estava no programa. Só tinha sido avisada na terça, depois do expediente. O chefe ligou para o celular dizendo que havia pintado uma emergência, que ela tinha de embarcar sem falta na manhã seguinte. Foi aí que ela lembrou do aniversário no sábado e quase teve um xilique. E agora? Cancelava tudo? A idéia da festa havia surgido de estalo, domingo passado, no churrasco da Rita, e ainda não tinha organizado nada. Sua faxineira, por azar, estava grávida. O apartamento não era limpo há umas duas semanas. Foi Rita, para quem ligou em pânico, quem a tirou da enrascada. Prometendo mandar a filha da empregada fazer uma faxina. Tinha até se encarregado de contratar um chef para preparar o jantar. A Rita era um anjo.

A reação do Renato já não tinha sido tão boa. Fazia tempo que as coisas não iam muito bem entre eles. Precisavam conversar. Ele andava emburrado, reclamando que namorava um fantasma, que ela nunca tinha tempo para ele. Isto era injusto. Ela ligava todos os dias e saía para a balada sempre que podia. Renato precisava entender que ela tinha compromissos.

Desligou os faroletes. Já estava claro e o trânsito estava ficando complicado. Pensou com prazer na cama quentinha que a esperava. Só mais uns minutinhos e estaria em casa... Se pusesse o despertador para as onze, ainda daria tempo de fazer tudo. O celular tocou. Era o chefe. Haviam conseguido o produto que faltava e a reunião estava de pé. Quanto tempo levaria para chegar a São Caetano? Uma hora, uma hora e meia, dependendo do trânsito. Estava a caminho.

Desligou o celular, conteve a frustração e pensou – a reunião é importante. Sentia-se exausta, exaurida, gasta. Lembrou da mala aberta no meio da sala, dos sapatos, calcinhas e soutiens espalhados sobre o sofá e o tapete. Havia chegado às dez e meia da noite, depois de quatro horas esperando por uma conexão. Havia chegado morta, mal teve forças para ligar para o namorado e tomar uma ducha antes de desmaiar na cama (e o Renato ainda queria que ela fosse se encontrar com ele numa balada!).

Os carros a sua frente começavam a diminuir a velocidade. Foram diminuindo, diminuindo, até que a avenida inteira parou. Um acidente, pensou. Sirenes, as luzes da polícia piscando alguns quilômetros à frente. De repente, bateu uma vontade besta de chorar. Ela não merecia isto. Era seu aniversário, pelo amor de Deus! Quando é que isso ia acabar? A que horas ia conseguir chegar em casa? Não havia bebidas no apartamento, lembrou. Ia ter de falar com Renato, ele ia ter de quebrar este galho. Mas a essa hora ele ainda estava dormindo. Não tinha coragem de acordá-lo. Podia ligar mais tarde. Lembrou-se de ligar para a mãe, mas desistiu – mamãe vai insistir que eu almoce com eles no domingo e não vai entender que tudo o que eu quero é dormir, dormir, dormir, com o Renato ao meu lado de preferência, e depois passar o domingo de bobeira, na cama. E se eu disser ao Renato que vou almoçar com minha família no domingo, acabou.

Renato... o que estava acontecendo com ele? Andava frio, distante, sempre reclamando de alguma bobagem. Ele precisava entender que ela não era dona de seu tempo, que, se pudesse, passaria o dia namorando, sairia todas as noites para a balada. Mas que já tinha sido obrigada a desistir do inglês, da yoga e das aulas de fotografia, que adorava, por falta de tempo. Tinha perdido contato com a turma da faculdade, raramente ia a shows, ao cinema de vez em quando. Só não abria mão da academia, todas manhãs. E, depois da promoção, até à academia andava faltando.

A policia levou uns vinte minutos para desimpedir a pista. O trânsito começou a se mover, lentamente no começo, depois foi pegando velocidade. Com toda a confusão e os atrasos, a reunião, que devia ter acabado às onze, acabou às três. Chegou em casa quase às cinco. Mal teve tempo de enfiar a mala com tudo dentro em um closet, dar uma ajeitada na casa, fazer as unhas e trocar de roupa quando o interfone tocou. Era o chef e sua equipe. Lembrou-se das bebidas, e que não havia ligado para Renato. Ele atendeu o celular no carro, estava a caminho, e não gostou nada de ter de parar no supermercado para comprar as bebidas.

Os convidados começaram a chegar às sete e meia. Depois do segundo drinque, ela começou a se sentir mais solta, mais animada, a se divertir. Tinha a impressão que Renato a evitava, mas resolveu não dar bola. Podiam se entender depois da festa, quando ficassem a sós. O jantar estava divino, mas o cansaço começava a pesar. Depois do quarto ou quinto drinque, e do primeiro baseado, passou a ver tudo através de uma bruma. Não agüentava mais dançar. Não podia ficar sentada por que os olhos se fechavam sozinhos. Tinha vagas recordações de ver Renato na maior animação com uma loura horrorosa - quem tinha convidado aquela bruxa? Não lembrava como a festa acabara.

Quando acordou, no dia seguinte, eram onze horas e estava sozinha. Abriu a janela que dava para o parque. A luz clara do domingo ensolarado entrou no quarto, trazendo o ruído de vozes animadas, de pessoas alegres, brincando ao sol.

Voltou para a cama e chorou até as duas.

sábado, 19 de maio de 2007

From Paris, with love


Os pacotes eram trazidos pelo correio, e o correio chegava de ônibus àquele povoado distante, escondido no alto da serra. “De ônibus” não era como se dizia naquele tempo, pós-guerra, anos 50 - todos falavam “veio na linha”. Nós ficávamos excitados só de ver os tais pacotes, que não se confundiam com os outros que o correio trazia, cartas, jornais e revistas enrolados, pequenas caixas contendo miudezas ou remédios; nossos pacotes eram diferentes, inconfundíveis.

Vinham sempre enrolados em papel encerado marrom com uma fita azul, vermelha e branca nas margens, e cobertos por uma quantidade imensa de selos, o nome do recipiente invariavelmente traçado em tinta verde. Nossa primeira preocupação era examinar ansiosamente os selos, para ver se eram novos ou repetidos. Tia Valentina, tiótia Valia para nós, tinha sempre o cuidado de incluir ao menos alguns selos comemorativos, grandes e coloridos, entre os muitos necessários para completar a postagem. Mais tarde, eles seriam descolados com vapor e acrescentados à coleção. Naqueles tempos, quando a sociedade de consumo ainda não havia chegado ao interior do Brasil, colecionávamos tudo – selos, conchas, borboletas, pedras brilhantes, estampas de sabonete, cartões de natal.

Nossa imaginação dava piruetas tentando adivinhar que tesouros se escondiam naquele pacote. O primeiro a chegar ao balcão e receber o pacote de dona Aracema, a encarregada dos correios, sacudia-o com as duas mãos para descobrir o que havia dentro pelo ruído, aproximando-o depois do nariz – nós adorávamos cheirar os pacotes, que tinham um cheirinho bom, uma mistura de papel encerado, cola, tinta de caneta e, quase imperceptível, um aroma adocicado de balas e chocolate.

Voltávamos para casa quase correndo, animados, disputando ruidosamente a honra de carregar o pacote. Não era longe. O povoado inteiro não tinha mais do que alguns quarteirões, com três ruas de terra correndo em um sentido, cortadas perpendicularmente por outras quatro. Morávamos na rua principal, onde estavam localizadas a igreja, o cartório, a escola e a estação.

Ir buscar a correspondência “na linha” era responsabilidade das crianças. Quando ouvíamos o ronco cansado e inconfundível do ônibus lutando para subir a última ladeira, antes de surgir no alto da capelinha de São Cristóvão, que marcava o início da vila, corríamos para a estação. Não éramos os únicos – a chegada da “linha” era o acontecimento mais importante do dia e toda população acorria para ver quem tinha chegado. O velho e decrépito ônibus, patrioticamente pintado de verde e amarelo, era a única ligação regular que a vila tinha com o mundo lá fora. A pobre e brava criatura, sobrecarregada de gente, malas forradas de lona, sacos, caixas, galinhas e cachorros, levava cinco horas para cobrir os oitenta e poucos quilômetros de estrada pedregosa e esburacada e os riachos sem ponte que nos separavam da cidade mais próxima. Quando o tempo estava firme, chegava perto do meio-dia; em época de chuvas chegava mais tarde, ás vezes noite fechada, às vezes no dia seguinte.

Meu pai era o único médico naquelas paragens e um exilado político. Havia fugido da Rússia na década de 1920, nos tempos conturbados que se seguiram ao golpe de estado Bolshevik, se instalando naquela povoação remota, no extremo sul do país, após anos de peregrinação por diversos países europeus. Antes de se decidir a abandonar a Europa para sempre, na véspera da Segunda Guerra Mundial, havia passado por Istambul, Nice, Hannover e Praga, onde havia se formado em medicina.

Em nossa imaginação tia Valentina, a irmã de papai que nunca havíamos visto, aparecia como uma personagem de contos de fadas. Ela vivia em Paris; ela havia sido atriz no teatro de Stanislavski; seu marido tocava violino e esculpia lindos bichinhos de madeira; e ela nos cumulava de presentes mágicos.

Tínhamos fotografias de Valia – ela havia sido linda em sua juventude, e emanava um ar de aristocracia e refinamento que contrastava com tudo que víamos naquela pobre vila de madeira perdida no meio do mato de araucárias. A fotografia de Valia aos dez anos, montada em um porta-retrato dourado, permaneceu sobre minha escrivaninha por toda infância e boa parte da adolescência – ela me lembrava Alice no País das Maravilhas.

A abertura dos pacotes era um ritual. Eram abertos por minha mãe, a única autorizada a celebrar o rito, depois do jantar. Mamãe abria o papel encerado solenemente, passando-o para minha irmã mais velha que, de tesoura na mão, esperava para separar a parte dos selos. Minha mãe ia retirando o conteúdo do pacote aos poucos, enfileirando os pacotinhos menores, enrolados em papel de presente colorido, à sua frente. Colado a cada presente, um pequeno cartão com o nome do felizardo. Nós éramos cinco, quatro irmãs e eu. Incapazes de conter a excitação, nos amontoávamos em torno da mesa de jantar, empurrando uns aos outros para chegar mais perto, espichando o pescoço para ler os nomes nos cartões. Tocar nos pacotes à esta altura era terminantemente proibido, e quem quebrasse a regra se arriscava a ser mandado para o quarto e perder todo a festa. Meu pai, à cabeceira da mesa, olhava a cena com evidente satisfação, um leve sorriso aflorando a seus lábios de vez em quando.

Finalmente, após esvaziar completamente a caixa, minha mãe pegava um pacotinho e lia um nome. A criança cujo nome havia sido chamado recebia o presente da mão de minha mãe e se apressava em abri-lo com os dedos impacientes e desajeitados, muitas vezes rasgando os papéis coloridos em que estavam enrolados, para o desgosto de Mamãe, que gostava de guardá-los para usá-los no futuro.

Havia sempre um saco grande de Pierrot Gourmand, umas balas francesas que adorávamos, e algumas barras de chocolate Suchard. As balas, deixadas sob a guarda severa da governanta russa, eram distribuídas em porções fixas a horas certas, e duravam semanas. Cada um de nós tinha direito a três balas de Pierrot Gourmand por dia, após a sobremesa. Já o chocolate, só era distribuído em grandes ocasiões, como Aniversários, o Natal ou a Páscoa.

Mas havia muito mais que balas e chocolate nos pacotes. Tia Valia mandava livros ilustrados em francês ou em russo, cartões que mostravam os castelos do Loire ou as obras primas do Louvre, figurinhas para colarmos em nossos cadernos, canetinhas diferentes, ursos, galos e outros animais em miniatura esculpidos na madeira por tio Mitia, bonecas vestindo trajes típicos de diferentes partes da França e da Espanha, bijuteria para as meninas, ovos de Páscoa de madeira decorados à maneira russa, e muitas outras maravilhas.

O encanto destes presentes durava semanas – semanas contando quantos Pierrot Gourmand cada um de nós ainda tinha, lendo e relendo os contos de cada livro, montando circos e zoológicos com os bichos em miniatura, estudando com afinco cada detalhe das gravuras, brincando com as bonecas, exibindo orgulhosamente as bijuterias, canetinhas e lápis para os amigos. Nosso mundo se enchia de magia e beleza. Havia presentes para minha mãe e meu pai também, é claro, mas destes nós não nos ocupávamos.

Anos mais tarde, quando já havia chegado à adolescência, pude conhecer tiótia Valia em pessoa. Era uma velhinha muito empertigada, que vivia em uma casa de repouso para exilados russos nas proximidades de Versailles. Não se parecia nada com Alice no País das Maravilhas ou com uma rainha de contos de fadas, ao menos aos meus olhos hiper-críticos de adolescente.

Mas os pacotes que nos enviava permanecerão para sempre mágicos em minha memória.

(novo texto – 27 de maio)

terça-feira, 8 de maio de 2007

Fragilidade

Ele surgiu do nada. A mulher levantou os olhos do livro e viu o menino à porta, nitidamente recortado contra a luz abundante que vinha do jardim. Devia ter uns sete, oito anos, no máximo. Permaneceu alguns segundos em uma atitude de imobilidade elétrica, como um animalzinho erguido sobre as patas traseiras, movendo as orelhas, cheirando o ar, pronto a fugir ao menor sinal de perigo. Dois olhos inteligentes e ávidos esquadrinhavam a sala. Ela sorriu.

Convencido de que o lugar era seguro, ele relaxou e entrou na sala apontando para uma gravura medieval pendurada sobre o divã. “Eu sei o que é isso. Esse é o rei”, mostrou com o dedo, “esta é a rainha; este é sol e esta é a lua.” Disse e ficou olhando para ela, esperando sua reação. A gravura representava um mistério alquímico, a conjunctionis oppositorum, o Casamento do Sol e da Lua.

A terapeuta concordou sem se mover da poltrona, e apontou para outro quadro, na parede ao lado. “E aquele ali?” O menino pousou os olhos inquisitivos sobre o quadro e encolheu os ombros magros num movimento expressivo.

Era um quadro moderno, no qual as figuras de Teseu, do minotauro e do labirinto se sobrepunham e se misturavam, desafiando um reconhecimento à primeira vista. “Se você olhar bem”, disse ela, “vai enxergar uma cabeça de touro”.

Ela lembrava de ter visto o menino algumas vezes por ali, acompanhado do pai, tagarelando sem parar. Provavelmente um caso de DDA. Ela não trabalhava com crianças, mas algumas das salas da clínica eram usadas por profissionais especializados nesta área. Para ela, acostumada à ladainha e às queixas de executivas stressadas e donas-de-casa frustradas, a visita da criança era como uma lufada de ar fresco.

“Achei o touro”, exclamou o menino, orgulhoso como quem encontra a solução para um problema especialmente complexo. “E isto aqui, o que é?”, perguntou apanhando uma estatueta de cerâmica na prateleira. Era a reprodução de uma vênus paleolítica, toda seios e nádegas. Por um momento ela teve medo que o menino deixasse cair a frágil figura.

- “É uma mulher”, respondeu.

- “Não parece uma mulher”, comentou o menino, revirando a estátua na mão para vê-la de todos os lados.

- “Ela está sentada”, ajudou a terapeuta.

- “Ah! Entendi!,” exclamou o menino satisfeito, “mas a cabeça é muito pequena. A cabeça das mulheres não é tão pequena.”

Foram interrompidos por uma voz aflita. “Lucas! Cadê você?” Era o pai do menino. “O que é que está fazendo aqui?” perguntou, perdendo a urgência, ao enxergar o menino através da porta aberta.

A terapeuta viu a silhueta do pai contra a luz, como vira o menino há poucos minutos atrás. Era um homem ainda jovem, de boa aparência, e não parecia zangado com o filho. Dirigindo-se à doutora, explicou: “Eu só saí da recepção por um minuto, fui pegar os cigarros no carro, mas esse diabinho não para quieto. A senhora me desculpe.” Estava visivelmente embaraçado. A psicóloga que atendia o menino e a secretária da clínica vieram se juntar ao pai à porta, bloqueando completamente a entrada de luz.

O silêncio que se seguiu as palavras do pai foi rompido pelo ruído abafado de algo que se quebrava.

A terapeuta leu claramente o que acontecia no rosto dos visitantes – três pares de olhos se arregalaram em perfeita sincronia enquanto três queixos tombavam deixando três caretas de estupefação muda.

O que se seguiu pareceu à terapeuta o estouro de uma boiada assustada pela queda de um raio. Saltaram todos com ímpeto para dentro da sala, atropelando-se na porta, estreita demais para permitir a passagem simultânea dos três, correndo em direção ao menino, falando todos ao mesmo tempo, dirigindo-se, ora ao menino, ora à terapeuta, horrorizados diante do ocorrido, ralhando com o garoto, pedindo desculpas, prometendo que não aconteceria de novo.

O pai pegou o menino no colo, enquanto dizia à terapeuta que não se preocupasse com o prejuízo, que pagaria por tudo. A psicóloga infantil continuava falando ao menino sem parar, seguindo o pai como um cachorrinho segue o dono. O menino era o único que não parecia perturbado. Olhava tudo com indiferença mesclada de curiosidade. O pai continuava falando em pagar pelo prejuízo, que podia dar um cheque agora mesmo, que bastava que a terapeuta dissesse o valor. A secretária, ajoelhada, juntava os cacos. De nada adiantou a terapeuta dizer que não tinha importância, que o menino não a importunara, que a cerâmica não tinha valor, não passava de um souvenir que trouxera de uma viagem à Europa. Nenhum dos três a ouvia, de tão mobilizados que estavam. Repetiam obsessivamente as mesmas explicações e desculpas.

Finalmente a campainha da porta da clínica tocou e a secretária foi atender, levando consigo os cacos. Antes de desaparecer carregado pelo pai, o menino abanou para a terapeuta:

- “Gostei muito de conhecer sua sala”, gritou ele enquanto se afastava.

- “E eu adorei sua visita”, respondeu a terapeuta com sinceridade, enquanto devolvia a saudação.

Quando o silêncio e a calma voltaram, ela deu um suspiro fundo e ficou longo tempo imóvel, o olhar perdido, pairando sobre o jardim ensolarado que se via através da janela.